quarta-feira, 3 de março de 2010

Teologia, um saber amoroso

“Se destruíres teus instrumentos de opressão, e deixares os hábitos autoritários e a linguagem maldosa; se acolheres de coração aberto o indigente e prestares todo socorro ao necessitado, nascerá nas trevas a tua luz e tua vida obscura será como o meio-dia. O Senhor te conduzirá sempre e saciará tua sede na aridez da vida, e renovará o vigor do teu corpo; serás como um jardim bem irrigado, como uma fonte de águas que jamais secarão” (Is 58,9-12).

A teologia se propõe a ser um discurso articulado sobre Deus e a partir de Deus, que é a fonte de toda Vida, a raiz e o princípio de todo amor, o próprio Amor (1 Jo 4,16). Isto confere ao saber teológico um grande diferencial, que toca sua estrutura interna. Fazer teologia é pensar e se expressar a partir do Amor, tal como se revelou na história da relação de Deus com seu Povo. Por isso, a teologia visa também aumentar a capacidade humana de amar.

A teologia não é um saber neutro, no qual o sujeito cognoscente se distancia com frieza matemática do objeto que pretende conhecer. Aliás, este próprio conceito de “neutralidade científica” está em crise, desde que um grupo significativo de pensadores afirmou que o olhar do observador influencia o resultado da observação, a começar do campo da microfísica e das estruturas moleculares. É parte intrínseca da teologia sua finalidade de levar o(a) teólogo(a) e a comunidade eclesial a conhecer o Deus-Amor. Ora, conhecer o Amor significa deixar-se amar, deixar-se tocar, aceitar ser iluminado por uma luz que não vem de si próprio (Sl 36,9). E ao experimentar o amor de Deus, amá-lo mais e, no Seu amor, amar a todas as suas criaturas (cf. 1 Jo 4,8). Se levarmos às últimas conseqüências a afirmação joanina de quem “quem ama conhece a Deus”, consideraremos que, no mínimo, o amor é a fé em potencial, ainda não plenamente manifestada.

Isso significa ainda que a teologia é simultaneamente uma reflexão sobre o amor (ágape-logia), que deve levar o ser humano a ser mais apaixonado por Deus e seu projeto salvífico em relação à humanidade e ao cosmos. A linguagem mais adequada para se aproximar deste mistério fontal, comporta algo específico. A teologia cristã, desde os princípios, vive a tensão entre poder falar de Deus, pois Ele mesmo se revelou (dimensão katafática), e reconhecer que todo discurso sobre o Senhor não consegue abranger a grandeza e a profundidade do Divino (dimensão apofática).
Porque é um falar sobre o Amor, a partir do Amor e visando fazer o ser humano mais amoroso, a teologia não pode lidar somente com conceitos. Toda a história da teologia no ocidente, especialmente a partir da escolástica, levou a uma grande conquista: refletir de Deus com conceitos abalizados. É algo irrenunciável para realizar a tarefa de “dar razões para nossa esperança”. Mas a teologia necessita também recorrer à história de Deus nas vidas das pessoas (caráter testemunhal) e lançar mão das analogias e da linguagem poética. Só assim, numa pluralidade de linguagens e abordagens, deixar-se-á tocar pelo mistério amoroso de Deus.

Não se trata novamente de compartimentar a teologia, reservando somente para a espiritualidade a dimensão amorosa da teologia; para a moral seu aspecto ético; e para as outras disciplinas seu caráter racional. Toda e qualquer disciplina teológica precisa estar embuída de espiritualidade, pois é um discurso que leva a conhecer e deixar-se conhecer por Deus, viver em intimidade com o Senhor, amá-lo e servi-lo. Comporta também uma dimensão ética, pois o serviço a Deus e ao seu Reino se visibiliza nas relações interpessoais e nas estruturas culturais, sócio-políticas e econômicas.
Quando se afirma que a teologia é um discurso amoroso sobre Deus, leva-se em conta que o afeto é componente essencial desta forma específica do saber. No entanto, isso não significa fideísmo, ou um discurso religioso ingênuo e adocicado pelo pietismo. A teologia não pode abandonar a coerência dos conceitos, o necessário uso da razão, de forma crítica e construtiva, e a articulação com os outros saberes humanos. Enquanto exercício da razão iluminada pela fé, é o amor lúcido, o amor pensante. Fazer teologia exige tanto o distanciamento crítico da razão quanto o envolvimento amoroso da fé. Desta tensão salutar emerge o diferencial da teologia.

É bom sinal quando um instituto de teologia, ao fazer sua avaliação anual com os alunos e professores, se pergunta: em que sentido a aprendizagem da teologia nos ajudou a conhecer, amar e servir melhor a Deus e a seu Povo. Em que aspectos auxiliou a peregrinação espiritual dos professores e dos alunos? Uma das tentações mais fortes de qualquer forma de saber, inclusive da teologia, é levar à auto-suficiência, nutrindo o orgulho e a vaidade. A lógica sutil consiste em: “porque sei mais do que os outros, sou melhor do que eles”. Assim, o conhecimento racional ocupa o lugar do conhecimento intuitivo e teologal (conhecer a Deus, ao viver a fé, a esperança e a caridade) e parece dispensá-lo. Na realidade da comunidade eclesial, os dois se completam. O (a) teólogo(a) é intérprete não somente dos dados teológicos da Escritura, na corrente da Tradição viva de sua Igreja, mas também das manifestações atuais da fé, na sua beleza e ambigüidade.
Afonso Murad

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Teologia da Libertação: autocrítica e perspectivas

Este artigo de J.B. Libânio, escrito originalmente para um livro e disponibilizado no seu site, apresenta de forma sintética e profunda a autocrítica da Teologia da Libertação e algumas perspectivas para a futuro.
A TdL diante de tantas críticas, da crescente resistência do magistério eclesiástico, do fracasso dos movimentos alimentados por ela (Revolução Sandinista, lutas populares), da queda do Socialismo real, da cultura pós-moderna com o surto religioso e da extrema subjetividade atual, do novo paradigma científico emergente empreendeu sua autocrítica. Revendo o seu discurso, reconhece-lhe certo pessimismo e negativismo sobre o mundo presente e sobre o ser humano, lido sob a ótica da opressão. Discurso monocórdico e positivista que pensa dar conta cabal da realidade, atropelando-lhe a complexidade, hoje amplamente desvendada pelas ciências sociais, pelas novas biociências, pelas ciências cognitivas e do comportamento humano (etologia), pelas novas tecnologias da informação e comunicação. Ao mesmo tempo, era uma teologia idealista, virtual, que imaginava ser realidade os seus desejos como a Igreja dos pobres, o sujeito histórico popular, o pendor natural e ético do ser humano para a solidariedade.

Uma linguagem dualista a marcou, visualizando um grande inimigo – o capitalismo - a ser combatido à custa de sacrifícios e de um compromisso, que descuidaram a dimensão lúdica e prazerosa da vida. Isto lhe tirou o encanto e prazer. Ela necessita tornar-se uma teologia humanamente saudável. A TdL inicial tinha grandes vazios: “a corporeidade, o prazer, o “saber viver”, o “estar bem com a vida”, o direito de consumir bens e serviços variados e de qualidade, a beleza, a imersão em imaginários esperançadores, a autoestima, o incentivo a aspirações e à iniciativa, o embalo da paixão, etc. “ (Assmann, 2000: 126). A revisão tem consistido mais na ampliação de seus horizontes do que no refazimento de seu método ou princípios fundamentais por estar consciente de que marcou significativamente o universo teológico, a vida da Igreja e da Sociedade para além da AL como primeira teologia original desde a periferia. Sabe-se atual enquanto houver pobreza e injustiça social e cristãos que queiram lutar contra elas a partir de sua fé. Foi presença questionadora para militantes e intelectuais que rejeitavam a fé cristã por causa de sua vinculação histórica com posições ideologicamente conservadoras.

Irrenunciáveis são seu método, sua opção fundante pela libertação dos pobres, a articulação fé e vida, Revelação e realidade social, teoria e práxis, sua vinculação com as CEBs. Percebeu que tem de ampliar a gama dos oprimidos para além da pobreza material incluindo a etnia, o gênero, a ecologia, a religião. Para tal, exige-se uma reformulação das mediações socioanalíticas, ao inserir nelas a antropologia, a etnologia, a psicologia nas suas diversas formas. Reconhece sua carência no campo da pneumatologia, tanto na sua articulação com a pessoa histórica de Jesus, quanto com a eclesiologia. A dimensão da subjetividade e da espiritualidade fora negligenciada. Por distanciar-se do culturalismo e por prender-se demasiado às estruturas socioeconômicas esposara uma visão estreita da cultura. Percebe a necessidade de desenvolver uma confrontação com a cultura, a ética e a religião. Descobre a possibilidade de alianças com movimentos sociais alternativos, regionais e mundiais, em torno desses três campos, valorizando uma presença na sociedade civil em vez de fechar-se exclusivamente numa luta no espaço da sociedade política, do Estado.

Uma visão preconceituosa da religião popular foi já desde bom tempo confessada e corrigida. Ela não cultivou uma teologia do cotidiano dos pobres no campo religioso ou secular, onde há muito espaço para sua humanização e pequenas libertações. O pobre é também realidade de inspiração e esperança pela sua fé, valores humanos e não só de indignação contra a situação a que foi submetido. Desafia a TdL a nova situação religiosa criada pelos grupos evangélicos neopentecostais. Os pobres mais pobres não freqüentam as CEBs, mas essas igrejas. Elas oferecem respostas às necessidades imediatas do povo pobre. Prometem-lhe para logo a cura divina de seus males físicos e psíquicos, a libertação do demônio (exorcismo), a prosperidade material, o alívio, o consolo e bem-estar espiritual, a dignidade humana pela recuperação dos vícios, experiências de transe e dons carismáticos sob a liderança autoritária do pastor. Seduzem o povo. Falam a um inconsciente povoado de símbolos religiosos tradicionais e afroameríndios, ressemantizando-os. Fazem o oposto das CEBs que o conscientizavam para a luta num horizonte utópico. Dão uma importância ao corpo de cada pessoa, sua saúde, o que a TdL não fez. Alienam as pessoas da consciência política e social para colocar unicamente na fé a solução de seus problemas a curto prazo. O dízimo-sacrifício representa a maneira “compensatória” de obter-se a bênção de Deus. O discurso libertário da TdL necessita ser repensado à luz desse fato de proporções gigantescas, entendendo, recuperando e interpretando na perspectiva libertadora os símbolos religiosos do povo.

Há uma pós-modernidade popular que interpela a TdL. O povo desconfia das “grandes narrativas” libertárias sociais que nada de bem lhe trouxeram. Percebe que os progressos da razão não são para ele. Experimenta antes o reverso da história, daí sua abertura a discursos espiritualistas com soluções imediatas, onde se misturam elementos da pré-modernidade, modernidade e pós-modernidade. A TdL necessita ter a sensibilidade de perceber no povo essa imbricação de horizontes culturais e falar-lhe em termos de fé. A sociedade e a cultura oferecem enorme pluralidade de práticas sociais possíveis, de valores, de perspectivas. No horizonte de suas opções fundamentais é chamada a ajudar o povo a discernir, renunciando um monolitismo de projeto.

Desafia-lhe saber situar-se entre a utopia e a realidade, sem cair no engodo da capitulação diante do neoliberalismo globalizado nem do utopismo idealista. Em termos eclesiais significa navegar contra as correntezas espiritualistas alienantes, o conservadorismo intraeclesial, um catolicismo de marketing mediático. Ontem desafiava a TdL pensar a fé numa situação de pobreza, mantida pela violência dos regimes militares; hoje a pobreza é pior, mas mantida pela ilusão das promessas neoliberais e das igrejas neopentecostais.
Texto: J.B. Libânio
Pintura: Frei Anderson msc

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Fundamentalismo e Teologia

Partilhamos com você alguns textos sobre o Fundamentalismo religioso cristão. Pense no impacto que ele provoca na teologia. Após ler, deixe sua opinião....

(1) Parte de entrevista com Bernardo Veiga, na revista eletrônica do IHU- Instituto Humanitas Unisinos, de São Leopoldo- RS
Como avalia que se estabelece hoje o diálogo entre as religiões, na prática, no Brasil?
Bernardo Veiga - Infelizmente, ainda existe no Brasil de hoje o problema do cristianismo fundamentalista, como vimos quando quatro jovens evangélicos, da denominação "Nova Geração de Jesus Cristo", foram presos por invadir um centro de Umbanda e quebrar imagens religiosas. Sem dúvida, é uma covardia e uma violência sem tamanho. Mas, em geral, acho que o Brasil tem muito a ensinar para o resto do mundo. O nosso diálogo hoje faz parte de uma boa herança cultural já estudada por Gilberto Freyre em Casa-grande & senzala. Claro que ainda temos os velhos preconceitos clássicos com relação a algumas religiões africanas, como, por exemplo, a tentativa por parte de alguns cristãos de converter os crentes dessas religiões africanas sem respeitar a liberdade de suas consciências. Mas ainda parece que temos uma disposição positiva em relação às diferenças religiosas.

O senhor defende que as bases do diálogo entre as religiões devem se fincar em algo que é comum a todos antes de optarem por uma religião. O que seria esse "algo comum"?
Bernardo Veiga - O algo comum a todas as religiões pode ser entendido de duas maneiras: o que há de comum em todos os homens devido à sua natureza humana e o que, de fato, têm em comum as religiões. No primeiro aspecto, é preciso estudar ética, antropologia filosófica, lógica e as demais ciências relativas à natureza humana, para saber em que consiste essa base comum da humanidade que chamamos natureza humana. O segundo aspecto refere-se ao que têm em comum as religiões, para assim sabermos o que uma religião precisa ter para ser aceita em um diálogo inter-religioso. Neste sentido, é estritamente necessário defender a existência de um forte vínculo das religiões com a verdade, isto é, com o conhecimento verdadeiro. Além do mais, temos que dizer que a base comum da religião passa pela base comum do homem, porque, segundo a visão de Bento XVI, o homem é uma criatura que procura e se move pela verdade, e, portanto, deve escolher sempre a religião que entenda ser a mais verdadeira, a mais coerente.

Qual o risco das posições fundamentalistas, no sentido de construir uma falsa mística violenta, como se Deus fosse também violento? Quais as consequências culturais das decisões religiosas fundamentais?
Bernardo Veiga - Hoje, o termo "fundamentalismo religioso" é usado em muitos casos distintos e acabou se tornando um termo equívoco e problemático. Em minha opinião, fundamentalismo religioso não é defender a verdade da própria fé, mas afirmar que as outras religiões são inimigas e devem ser atacadas de qualquer forma, como se Deus quisesse a violência no mundo. E, a partir disto, estamos falando de duas grandes visões sobre Deus: 1- um Deus racional e amoroso e 2- um Deus irracional e sentimental. No primeiro aspecto, que não é fundamentalista, encontramos um Deus que é amor e razão, que congrega em si mesmo a justiça e a misericórdia, que se inclina para o mundo porque faz questão do mundo, porque é a sua criação. Mas age assim porque vê no mundo a sua própria Beleza, pois "vê que tudo era bom" (Gn 1, 31) por ser obra dEle. A segunda visão vê a Deus separando nEle sua sabedoria e seu amor. Isto é, admite que Deus pode criar coisas que são absurdas ou irracionais se Ele assim o quiser, que é o mesmo que dizer que seu amor é maior que sua racionalidade. Há nisso uma diferença sutil, mas que no fim causa discursos totalmente opostos. Veja, quando se diz que Deus é racional e amoroso, que não é fundamentalismo, quer dizer que o próprio Deus se submete às leis da racionalidade. Não é que limitamos o poder de Deus no mundo, mas apenas dizemos que Deus não pode querer o mal, porque ele é a pura Bondade. E o fundamentalismo religioso extrapola a possibilidade de um Deus bom e diz que Ele pode querer, fazer e mandar a violência.

(Em breve, mais textos)

Fé e Teologia

A teologia cristã só pode ser compreendida a partir da fé de que Deus mostrou quem Ele é, manifestando o seu projeto de salvação para a humanidade. É o que, nós, cristãos, chamamos de REVELAÇÃO.
Revelação significa que Deus diz quem Ele é e propõe a aliança com seu povo. A resposta a essa proposta de Deus se chama FÉ. Portanto, só se pode fazer teologia porque, na fé e pela fé, acolhe-se a Revelação de Deus. O ato de fé parece simples, mas tem muitos componentes. Pode-se comparar a um cavaquinho. Esse pequeno instrumento musical tem apenas quatro cordas. Elas precisam estar afinadas, a fim de que o músico toque a melodia e anime a roda de samba. Assim como o cavaquinho, a fé cristã faz sua melodia com quatro cordas afinadas: a entrega a Deus, o conhecimento, o amor e esperança.

Em primeiro lugar, a fé consiste na atitude de confiar em Deus, entregar o coração a Ele, jogar-se em suas mãos em entrega amorosa. Isso não acontece de uma vez por todas, pois existe uma caminhada, um processo que acompanha a existência.

A fé significa ainda crer naquilo que Deus revela por meio de sua Palavra. Ao acreditar, o ser humano quer conhecer o conteúdo da revelação de Deus. Por isso, a fé, mesmo não sendo meramente racional, precisa da razão, da inteligência e do conhecimento. Deus se revela através de gestos e palavras, num determinado momento da história, de forma que o ser humano possa compreender. A Palavra Divina se manifestou em linguagem humana, com as limitações e condicionamentos que ela supõe. A revelação é continuamente reinterpretada, para alcançar o sentido original que Deus manifestou e assim atualizar sua mensagem.

A terceira corda da fé é a prática do amor, enquanto caridade e solidariedade: “Quem ama nasceu de Deus e conhece a Deus” (1 Jo 4,7). O amor é a forma mais direta de chegar a Deus, mesmo que a pessoa não creia nele ou esteja em uma religião equivocada. Para saber se alguém é do “time” de Deus, basta ver as ações e atitudes e analisar os valores que sustentam sua existência. Quem é “do Bem” age conforme o Bem: nas suas relações pessoais, no trabalho, na Igreja e na sociedade. A reflexão teológica leva os cristãos a refletir sobre o impacto de suas ações individuais e de suas práticas coletivas. A teologia não é somente um estudo teórico sobre a Bíblia e a doutrina cristã, e sim também uma bússola para o cristão atuar no mundo.

A quarta corda da fé diz respeito à Esperança, ao nosso futuro último e definitivo. Na Epístola aos Hebreus, se diz que: “A fé é um modo de possuir aquilo que se espera, é um meio de conhecer realidades que não se vêem ainda” (Hb 11,1). Quando cremos em Deus e estabelecemos relação com a Trindade, através do caminho que é Jesus Cristo, já estamos antecipadamente experimentando um “gostinho” da Eternidade. A Igreja de Jesus é peregrina neste mundo. Embora toque a verdade de Deus, faz isso sempre de forma provisória e imperfeita. O mesmo acontece com seu saber, que é a teologia.

A fé tem muitas dimensões, como um cavaquinho de quatro cordas que tocam afinadas: a adesão a Deus, o conhecimento, a prática do amor solidário e a esperança. A teologia leva em conta essas quatro dimensões da fé, mas se concentra sobretudo no conhecimento. Ela é o momento de dar razão àquilo que acreditamos. E ao conhecermos mais, podemos agir melhor, como lucidez e firmeza. Ao mesmo tempo, o teólogo proclama que Deus está além de todo saber humano. Conhecemos a Deus amando-o, servindo-o e reverenciando-o. Então, a teologia parte da fé e retorna à fé.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Bíblia e Teologia

Apresentamos aqui textos de vários téologos, de diferentes Igrejas e correntes teológicas, sobre a relação da Teologia com a Bíblia e a comunidade cristã.

(1) Algumas características da leitura popular da bíblia (Carlos Mesters)
a) Ao ler a Bíblia, o povo das Comunidades traz consigo a sua própria história e tem nos olhos os problemas que vem da realidade dura da sua vida. A Bíblia aparece como um espelho, "sím-bolo" (Hb 9,9; 11,19), daquilo que ele mesmo vive. Estabelece-se uma ligação profunda entre Bíblia e vida. É uma leitura de fé semelhante à que faziam as primeiras comunidades (cf. At 1,16-20; 2,29-35; 4,24-31) e os Santos Padres.

b) A partir desta ligação entre Bíblia e vida, os pobres fazem a maior de todas as descobertas: "Se Deus esteve com aquele povo no passado, então Ele está também conosco nesta luta que fazemos para nos libertar. Ele escuta também o nosso clamor!" (cf. Ex 2,24;3,7). Nasce assim uma nova experiência de Deus e da vida que se torna o critério mais determinante da leitura popular e que menos aparece nas suas explicitações e interpretações. Pois o olhar não se enxerga a si mesmo.

c) Foi surgindo uma nova maneira de se olhar a Bíblia e a sua interpretação. Ela já não é vista como um livro estranho que pertence ao clero, mas sim como o nosso livro, "escrito para nós que tocamos o fim dos tempos" (1Cor 10,11). Às vezes, ela chega a ser o primeiro instrumento de uma análise mais crítica da realidade. Por exemplo, a respeito de uma empresa opressora do povo, o pessoal da comunidade dizia: "É o Golias que temos que enfrentar!"

d) Pouco a pouco, cresce a descoberta de que a Palavra de Deus não está só na Bíblia, mas também na vida, e de que o objetivo principal da leitura da Bíblia não é interpretar a Bíblia, mas sim interpretar a vida com a ajuda da Bíblia. A Bíblia ajuda a descobrir que a Palavra de Deus, antes de ser lida na Bíblia, já existia na vida. As comunidades descobrem que a sua caminhada é bíblica. “Na verdade, o Senhor está neste lugar, e eu não o sabia” (Gn 28,16)!

e) A Bíblia entra na vida do povo não pela porta da imposição autoritária, mas sim pela porta da experiência pessoal e comunitária. Ela se faz presente não como um livro que impõe uma doutrina de cima para baixo, mas como uma Boa Nova que revela a presença libertadora de Deus na vida e na luta do povo. Os que participam dos grupos bíblicos se encarregam de divulgar esta Boa Notícia e atraem outras pessoas para participar. “Vinde ver um homem que me contou toda a minha vida!” (Jo 4,29).

f) A interpretação que o povo faz da Bíblia é uma atividade que compreende não só a contribuição intelectual do teólogo*, mas também todo o processo de participação da Comunidade: trabalho e estudo de grupo, leitura pessoal e comunitária, teatro, celebrações, orações, recreios, “enfim, tudo que é verdadeiro, nobre, justo, puro, amável, honroso, virtuoso ou que de qualquer maneira merece louvor” (Fl 4,8). Aqui aparecem a riqueza da criatividade popular e a amplidão das intuições que vão nascendo.g) Para uma boa interpretação, é muito importante o ambiente de fé e de fraternidade, através de cantos, orações e celebrações. Sem este contexto do Espírito, não se chega a descobrir o sentido que o texto tem para nós hoje. Pois o sentido da Bíblia não é só uma idéia ou uma mensagem que se capta com a razão e se objetiva através de raciocínios; é também um sentir, um conforto que é sentido com o coração, “para que, pela perseverança e pela consolação que nos proporcionam as Escrituras, tenhamos esperança” (Rm 15,4)

Conceito de Teologia

Seguem abaixo vários conceitos de teologia cristã, de diferentes autores.
"A teologia cristã é uma reflexão, sistemática e crítica, esperançada e sábia, sobre a fé cristã, vivida e transmitida nas comunidades eclesiais, a serviço da evangelização" (Afonso Murad)

Teologia em imagens

No nosso país, praticamente cada capital de estado tem uma orquestra sinfônica, que apresenta sobretudo concertos de música clássica. Algumas cidades mantêm bandas e fanfarras, que são mais populares. Quem vai à apresentação de uma orquestra ou acompanha o alegre cortejo da banda, delicia-se com a melodia.
Os músicos, além dos respectivos instrumentos, carregam consigo a pauta musical. Nela estão escritas as notas musicais, o compasso do tempo, os acordes, os arranjos e outras informações úteis para a execução da música. O público que assiste a um concerto ou acompanha a banda não está interessado em ler aqueles papéis. Quer curtir o som. Somente o músico sabe como a pauta é importante. Ela garante que a composição seja executada com precisão e fidelidade.
A fé cristã é como a música que alegra o coração, desperta sentimentos ternos, eleva a alma, pacifica, ajuda o ser humano a entrar em sintonia consigo e com a beleza do mundo. Já o músico, que executa a melodia no seu instrumento, é o teólogo(a). Ele(a) precisa conhecer a teoria musical e desenvolver a habilidade de tocar o instrumento com precisão, criatividade e gosto. Se a fé é como a música, a teologia se assemelha à pauta musical. Lá estão fixadas, para as gerações atuais e futuras, as notas, os compassos e os arranjos da fé cristã.
A música é sempre mais do que a pauta. A pauta é somente um humilde serviço para executar bem a música. Assim acontece com a teologia.
Fonte: Afonso Murad, A casa da Teologia (em elaboração)