domingo, 13 de março de 2011

O futuro da teologia

Entrevista ao teólogo latino-americano José Maria Vigil

Qual é o futuro da teologia? Para onde ela vai?
Para alguns, a pergunta é inútil, porque a teologia seria sempre a mesma, uma teologia perene. E deveria ser assim também no futuro. Pelos séculos dos séculos. Ela deveria buscar, simplesmente, ser fiel à sua missão de sempre e de "custodiar fielmente o depósito da fé". Mas essa visão estática não resiste à verificação histórica. Porque, na realidade, a teologia não fez nada mais do que mudar, evoluir, constantemente, desde o seu início.

Segundo a definição anselmiana, a teologia é "fides quaerens intellectum", fé que quer compreender. "Fides", aqui, não é a fé como uma entidade abstrata, sem sujeito... Quem quer compreender são os sujeitos crentes, que querem entender aquilo em que creem. Pois bem, com a mudança dos sujeitos crentes, geração após geração, em contextos históricos que em cada tempo são diversos, a sua busca de compreensão – "quaerens intellectum" – inevitavelmente evoluiu (...).

Na última parte do século passado, as comunicações, as migrações, o turismo, a própria mundialização diversificaram enormemente as sociedades. A maior parte do globo se tornou pluricultural e plurirreligiosa. Desapareceram quase totalmente as sociedades homogêneas, monoculturais e monorreligiosas em que se podia fazer teologia no interior de uma única religião, sem compreender as perguntas que surgem das reivindicações de verdade de outras religiões.

Antes ou depois, com maior ou menor consciência, os crentes querem finalmente compreender a relação da sua própria fé com os outros credos e reinterpretar as antigas respostas herdadas à luz desse pluralismo. É a teologia das religiões (nunca na história a teologia havia se colocado a questão das outras religiões), que depois se chamou teologia do pluralismo (que se pergunta: esse pluralismo é de fato ou de direito?) e que desemboca, enfim, na teologia pluralista: uma perspectiva nova, antes inimaginável na maior parte das religiões.

Se na sociedade convivem, agora, inevitavelmente, muitas religiões (…), o crente não quer saber só da sua própria religião, mas quer saber também o que as outras dizem. A teologia responde não com a resposta única de uma só religião, mas com o leque de respostas que as diversas religiões fornecem, para que a pessoa possa se enriquecer com tudo isso. Nunca aconteceu algo semelhante na história da teologia: trata-se da teologia comparativa.

Nesse contexto inter-religioso, são muitos os crentes – mesmo que ainda representem uma exceção – que têm uma experiência religiosa plural, que vivem a sua própria experiência religiosa em mais de uma religião. Têm um duplo pertencimento ou às vezes um pertencimento múltiplo. Obviamente, são muitos mais aqueles que acreditam que isso não seja possível ou que seja errado... e fazem bem ao não buscar experimentar. Mas o fato surpreendente daqueles que vivem um pertencimento múltiplo interpela a teologia com uma outra pergunta inédita: por que não deveria ser possível uma teologia inter-religiosa, multifé? A possível teologia inter-religiosa, apoiada por alguns, desprezada por outros, está aí, mesmo que em fase de experimentação (...).

A crise da religião tradicional, que é vivida paradoxalmente junto a uma revivescência de novas formas religiosas, já impôs praticamente a distinção clara entre religião e espiritualidade. Esta última é a dimensão profunda, enquanto a religião parece pertencer mais ao âmbito das formas, como interface que o ser humano criou para expressar aquela. Essa convicção, que já se afirmou em boa parte da sociedade atual, põe novas perguntas aos crentes. Eles querem entender o que significa então a religião: se a religião é, como sempre haviam pensado, a mediação primária para a espiritualidade, o único e principal canal de comunicação com o divino, ou se a religião é, ao invés, uma interface útil enquanto sirva, mas substituível ou prescindível quando encontra melhores mediações.

Nessa situação, como dissemos, as perguntas de muitos crentes são agora, nesse sentido, pós-religião: vão além das religiões e além da religião, embora estejam mais interessadas do que nunca na espiritualidade. A resposta a perguntas inscritas nessa perspectiva contribui com a elaboração de uma teologia pós-religiosa, laica, humana, preocupada com o papel humanizante da espiritualidade, muito além das religiões.

Uma vitalidade efervescente
Olhando para trás, podemos dizer que nos últimos 100 anos descobrimos mais mudanças evolutivas na teologia do que os que foram experimentados em toda a sua história. Como dizíamos, a sua evolução se acelerou. Surpreende-nos com a sua efervescente vitalidade. Ela chegou à sua fase final? Obviamente não. Não sabemos como o seu surpreendente itinerário seguirá em frente, mas apostamos em um brilhante futuro.

Não é preciso insistir, porque é óbvio que nem toda a teologia deve passar por cada uma dessas etapas... Nem que a aparição de uma nova etapa signifique desacreditar os modelos de teologia anteriores... O conhecimento humano, as culturas e também o mundo religioso evoluem por ondas sucessivas, mediante novos paradigmas que se apresentam de improviso, de modo surpreendente, caótico, não linearmente previsto. Encontram-se, cruzam-se, chocam-se, originam ou tornam possíveis outros paradigmas e tudo contribui para fecundar mutuamente o caminho rumo a etapas superiores. Os novos paradigmas nem sempre substituem os anteriores: com maior frequência, simplesmente se somam e se fecundam mutuamente. Nesse sentido, muitas teologias podem conviver juntas. Sempre haverá teologias confessionais enquanto houver confissões no mundo religioso. Essa forma de teologia não deve ser temida, será sempre necessária no seu âmbito: as formas de teologia supraconfessionais não vêm para expeli-la ou para substituí-la, mas sim para cobrir outros espaços em que aquela não foi aceita porque nem foi compreendida, isto é, na sociedade multirreligiosa, nos meios de comunicação laicos, na universidade laica...

A maior parte das formas de teologia dos últimos tempos pode continuar, cada uma no nicho em que foi sistematizada. Mas a meu ver isso não impede que, na evolução da teologia, possa se descobrir uma direção, um sentido que indique um certo perfil previsível da teologia do futuro.

Essa teologia teria as seguintes características:
- Não será mais uma teologia que coloque muito o acento sobre o "teo", porque aumentará sempre mais o conhecimento, em todas as latitudes, de que o teísmo é um modelo de compreensão/expressão da nossa concepção da divindade, não uma descrição certa e menos ainda imprescindível da "Realidade última";
- Não será, nem com muito entusiasmo, "logia", porque nesse ponto já descobrimos em nível mundial as deficiências da unilateralidade do discurso racional que exalta o "logos" a despeito de outras dimensões mais sutis do conhecimento humano;
- Será confessional quando for útil – para o serviço teológico no interior de ministérios ou âmbitos de uma determinada religião, obviamente – mas também saberá ser, quando necessário, não confessional, ecumênica e supraconfessional, em função do público ao qual se dirige e do âmbito em que se inscreve;
- Será, em todo o caso, pluralista, isto é, superará o complexo de superioridade religiosa do qual quase todas as religiões do mundo sofreram, um complexo que as levou a se considerarem diretamente divinas, a única religião válida do mundo. Ora, diante da evidência de que todas as religiões são lâmpadas da riqueza infinita da Realidade última, perceberão que o pluralismo religioso é o que foi "querido por Deus", em vez de ser um mal a ser combatido;
- Mesmo quando for confessional, certamente deverá ser, sempre mais, uma teologia comparativa: na sociedade plural, deverá se encarregar da palavra das outras religiões (...) mais do que permanecer dentro de restritos limites autorreferenciais;
- Mais do que simplesmente comparativa, será muitas vezes inter-religiosa, interfé, intercrente, multirreligiosa, multifé... (é ainda prematuro um vocabulário definitivo). Mesmo que hoje ela pareça ser impossível para muitos, para outros ela é uma possibilidade já em curso. Não é absolutamente excepcional a experiência de dupla ou múltipla pertença religiosa, mesmo que para muitos isso seja inimaginável. Aqueles que a experimentam estão em condições de elaborar esse tipo de teologia, e já estão em curso experiências provisórias, mas promissoras;
- Se poderá ser não confessional, é óbvio que ela poderá ser "laica", não oficial, nem clerical, nem pertencente a alguma instituição religiosa: uma teologia fora da instituição, laica, civil, espiritual, humana. Quem souber abrir os olhos provavelmente descobrirá que essa teologia já está em curso e que abre caminho, muitas vezes sem esse nome. Não é uma teologia convencional, que trabalha de maneira confessional, mas sim uma teologia que pretende simplesmente "humanizar a humanidade";
- Desde os tempos da teologia da libertação, acredito que essa qualificação não é facultativa, mas essencial: não existe teologia se não for libertadora. Mas a velha forma de teologia da libertação deve ser fecundada – e já o está fazendo – com os novos paradigmas que a seguiram. Não pode continuar sendo exclusivista, como foi originariamente, não por vontade explícita, mas de maneira inconsciente. Não poderá nem ser tão antropocêntrica como foi, também involuntariamente: agora, deverá ser cosmo-biocêntrica, para humanizar a humanidade e o planeta, a partir de uma perspectiva de eco-justiça.

Podemos esperar mudanças positivas na teologia?

Fecundado por tantos paradigmas novos e por tantas experiências em curso, o futuro da teologia é promissor e sedutor para quem se deixa fascinar por essa inquietação radical do ser humano, do ser humano religioso que sempre busca entender a sua própria religião.
Sem dúvida, estamos em um tempo de mudança radical, de formas novas de teologia que não foram nem sonhadas. O futuro é de quem se arrisca apontando para essa tarefa de refundação teológica.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Desabafo de um professor de teologia

Prof. Calvani

Sou um professor de Teologia em crise. Não com minha fé ou com minhas convicções, mas com a dificuldade que eu e outros colegas enfrentamos nos últimos anos diante dos novos seminaristas enviados para as faculdades de teologia evangélica. Tenho trabalhado como Professor em Seminários Evangélicos presbiterianos, batistas, da Assembléia de Deus e interdenominacionais desde 1991 e, tristemente, observo que nunca houve safras tão fracas de vocacionados como nos últimos três anos.
No início de meu ministério docente, recordo-me que os alunos chegavam aos seminários bastante preparados biblicamente, com uma visão teológica razoavelmente ampla, com conhecimentos mínimos de história do cristianismo e com uma sede intelectual muito grande por penetrar no fascinante mundo da teologia cristã.
Ultimamente, porém, aqueles que se matriculam em Seminários refletem a pobreza e mediocridade teológica que tomaram conta de nossas igrejas evangélicas.
Sempre pergunto aos calouros a respeito de suas convicções em relação ao chamado e à vocação. Pois outro dia, um calouro saiu-se com a brilhante resposta: "não passei em nenhum vestibular e comecei a sentir que Deus impedira meu acesso à universidade a fim de que eu me dedicasse ao ministério". Trata-se do mais típico caso de "certeza da vocação" adquirida na ignorância.
E, invariavelmente, esses são os alunos que mais transpiram preguiça intelectual.A grande maioria dos novos vocacionados chega aos Seminários influenciada pelos modismos que grassam no mundo evangélico. Alguns se autodenominam "levitas". Outros, dizem que estão ali porque são vocacionados a serem "apóstolos".
Ultimamente qualquer pessoa que canta ou toca algum instrumento na igreja, se auto-denomina "levita". Tento fazê-los compreender que os levitas, na antiga aliança, não apenas cantavam e tocavam instrumentos no Templo, como também cuidavam da higiene e limpeza do altar dos sacrifícios (afinal, muito sangue era derramado várias vezes por dia), além de constituírem até mesmo uma espécie de "força policial" para manter a ordem nas celebrações. Porém, hoje em dia, para os "novos levitas" basta saber tocar três acordes e fazer algumas coreografias aeróbicas durante o louvor para se sentirem com autoridade até mesmo para mudar a ordem dos cultos.
Outros há, que se auto-intitulam "apóstolos". Dentro de alguns dias teremos também "anjos", "arcanjos", "querubins" e "serafins". No dia em que inventarem o ministério de "semi-deus" já não precisaremos mais sequer da Bíblia.
Nunca pensei que fosse escrever isso, pois as pessoas que me conhecem geralmente me chamam de "progressista". Entretanto, ultimamente, ando é muito conservador. Na verdade, "saudosista" ou "nostálgico" seriam expressões melhores.
Tenho saudades de um tempo em que havia um encadeamento lógico nos cultos evangélicos, em que os cânticos e hinos estavam distribuídos equilibradamente na ordem do culto.
Atualmente os chamados "momentos de louvor" mais se assemelham a show ensurdecedores ou de um sentimentalismo meloso.
Pior: sobrepujam em tempo e importância a centralidade da Palavra e da Ceia nas Igrejas Protestantes. Muitas pessoas vão à Igreja muito mais por causa do "louvor" do que para ouvir a Palavra que regenera, orienta e exige de nós obediência. Dias atrás, na semana da Páscoa comentei com um grupo de alunos a respeito da liturgia das "sete palavras da cruz" que seria celebrada em minha Igreja na 6a feira da paixão. Alguns manifestaram desejo de participar. Eu os avisei então que se tratava de uma liturgia que dura, em média, uma hora e meia, durante a qual não é cantado nenhum hino (pelo menos na tradição de minha Igreja - Anglicana), mas onde lemos as Escrituras, oramos e meditamos nas sete palavras pronunciadas por Cristo durante a crucificação. Ao saberem disso, um deles disse: "se não houver música, não há culto".
Creio que, em parte, isso é reflexo da cultura pop, da influência da "Geração MTV", incapaz de perceber que Deus pode ser encontrado também na contemplação, meditação e no silêncio. Percebo também que alguns colegas pastores de outras igrejas freqüentemente manifestam a sensação de sentirem-se tolhidos e pressionados pelos diversos grupos de louvor. O mercado gospel cresceu muito em nosso país e, além de enriquecer os "artistas" e insuflar seus egos, passou a determinar até mesmo a "identidade" das igrejas evangélicas. Houve tempo em que um presbiteriano ou um batista sabiam dar razão de suas crenças.
Atualmente, tudo parece estar se diluindo numa massa disforme. Trata-se da "xuxização" ("todo mundo batendo palma agora... todo mundo tá feliz ? tá feliz!") do mundo evangélico, liderada pelos "levitas" que aprisionam ideologicamente os ministros da Palavra. O apóstolo Paulo dizia que a Palavra não está aprisionada. Mas, em nossos dias, os ministros da Palavra, estão - cativos da cultura gospel.
Tenho a impressão de que isso tudo é, em parte, reflexo de um antigo problema: o relacionamento do mundo evangélico com a cultura chamada "secular". Amedrontados com as muitas opções que o "mundo" oferece, os pais preferem ter os filhos constantemente sob a mira dos olhos aos domingos, ainda que isso implique em modificar a identidade das Igrejas. E os pastores, reféns que são dos dízimos de onde retiram seus salários, rendem-se às conveniências, no estilo dos sacerdotes do Antigo Testamento.
Um aluno disse-me que, no dia em que os evangélicos tomarem o poder no Brasil acabarão com o carnaval, as "folias de rei", os cinemas, bares, danceterias etc. Assusta-me o fato de que o desenvolvimento dessa sub-cultura "gospel" torne o mundo evangélico tão guetizado que, se um dia, realmente os evangélicos tomarem o poder na sociedade, venham a desenvolver uma espécie de "Talibã evangélico". Tal como as estátuas do Buda no Afeganistão, o "Cristo Redentor" estará com os dias contados.
Esses jovens que passam o dia ouvindo rádios gospel e lendo textos de duvidosa qualidade teológica, de repente vêm nos Seminários uma grande oportunidade de ascensão profissional e buscam em massa os seminários. Nunca houve tanta afluência de jovens nos seminários como nos últimos anos.
Em um seminário em que trabalhei (de outra denominação), os colegas diziam que a Igreja, em breve teria problemas, pois o crescimento da Igreja não era proporcional ao número de jovens que todos os anos saíam dos Seminários como bacharéis em teologia, aptos para o exercício do ministério.
A preocupação dos colegas era: onde colocar todos esses novos pastores?Na minha ingenuidade, sugeri que seria uma grande oportunidade missionária: enviá-los para iniciarem novas comunidades em zonas rurais e na periferia das cidades. Foi então que um colega, bastante sábio, retrucou: "Eles não querem. Recusam-se! Querem as Igrejas grandes, já formadas e estabelecidas, sem problemas financeiros".
De fato, percebi que alguns realmente se mostravam decepcionados ao saberem que teriam que começar seu ministério em um lugar pequeno, numa comunidade pobre, fazendo cultos nos lares, cantando às vezes "à capella" e sem o apoio dos amplificadores e mesas-de-som.
Na maioria dos Seminários hoje, os alunos sabem o nome de todas as bandas gospel, mas não sabem quem foi Wesley, Lutero ou Calvino.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Por que uma teologia contextualizada?

Afonso Murad
Segundo S. Bevans, fazer teologia contextual não é algo opcional, ou que diz respeito somente ao terceiro mundo. Ao contrário, o intento de compreender a fé cristã em termos de um contexto particular se trata de um imperativo teológico. Por que a teologia tem que ser contextual hoje? Fatores externos e internos contribuem para tal prioridade.
Podem-se enumerar quatro fatores externos. Em primeiro lugar, há uma insatisfação visível com as clássicas abordagens da teologia. No continente europeu, as variadas filosofias clássicas que no passado serviram de base à teologia (sobretudo à católica), não sintonizam com o pensamento contemporâneo. São insatisfatórias para interpretar a atual complexidade da existência humana. Faz-se necessário então estabelecer nova relação da teologia com os saberes atuais, para que ela recupere sua significatividade. Questiona-se a teologia como imutável, terminada, como “theologia perennis”, em nome da relevância.
Nos outros continentes, cresce também a convicção de que é necessário rever modelos culturais e formas de pensamento que estão na base da teologia ocidental. Para o teólogo da Índia R. Panikar, por exemplo, não se aceita no seu país o princípio da contradição, que está na base da lógica ocidental. Para sua cultura, as coisas podem ser e não ser ao mesmo tempo.
Em segundo lugar, reconhece-se que a teologia clássica carregou, de forma inconsciente, a ideologia dominante centro-européia. Considerou com universal aquilo que era típico de um determinado grupo humano. Assim, legitimou preconceitos e formas de opressão. Teólogo negro, protestante e norte americano, James Cone denunciou em suas obras como a teologia tradicional ignora a experiência dos negros, não ouve seus clamores e torna-os invisíveis. Outros escritores mostraram que a clássica ênfase na salvação individual e na ética intimista afetou as culturas que compreendiam a pessoa somente em relação ao seu grupo.
Em terceiro lugar, a crescente identidade das Igrejas locais demanda verdadeiras teologias contextuais. Recordando a clássica imagem de Lima Vaz, à medida que as Igrejas locais deixam de ser “espelho”, que se contentam em refletir o que determina o poder central ou copiar as práticas de outras denominações, e passam a ser “fontes”, necessitam de teologias contextuais. Trata-se de uma verdadeira descolonização da teologia.
Por fim, o quarto fator externo apontado por Bevans consiste na ampliação do conceito de “culto” e “cultura”. Até então, vigorava a idéia que existia somente uma cultura de valor, universal e permanente. Uma pessoa culta seria aquela que assimilaria os comportamentos, a visão, a forma de se expressar, a língua e manifestações artísticas dela emanadas. Hoje se compreende a cultura como conjunto de significado e de valores que expressam um estilo de vida. Reconhece-se que há muitas culturas ao redor do mundo. Assim, uma pessoa é culta enquanto se socializa e elabora de forma reflexa e profunda os elementos de determinada cultura, levando-a ao grau mais elevado possível de valores e significados. Ora, a uma concepção exclusivista de cultura correspondia a visão também exclusivista da fé cristã e da teologia. E tal concepção ser revela parcial e anacrônica.
Fatores internos à própria fé e à teologia justificam o imperativo de contextualizar a teologia. O primeiro e decisivo diz respeito à natureza encarnada do cristianismo. Deus tanto amou o mundo que compartilhou sua vida divina, fazendo-se carne (Jo 1,14; 3,16). Não de forma geral, mas de maneira particular. O filho de Deus se encarna numa pessoa humana de determinada etnia, gênero e cultura. A lição da encarnação, de se fazer particular para poder comunicar-se e dialogar, vale como figura inspiradora para a teologia contextualizada.
O segundo fator diz respeito à dimensão sacramental-simbólica da realidade. Deus não se revelou em Jesus com idéias abstratas, pretensamente universais, mas sim na realidade concreta humana. Por extensão, as coisas ordinárias da existência humana passam a ser transparência da presença de Deus. Assim, a cultura, a experiência humana, os eventos históricos, os elementos centrais que constituem os contextos, tornam-se parte integrante do processo de acolhida à revelação de Deus em Jesus.
O terceiro fator aponta para a mudança do conceito de revelação. Não se concebe mais como verdade eterna, delimitada numa linguagem divina pretensamente inalterável e imutável, pairando fora do tempo. E sim como a auto-comunicação de Deus através de gestos e palavras na história. A um conceito mais abrangente de revelação corresponde também o da teologia, como esforço de compreender e interpretar, sempre na história em mudança, ao auto-oferta divina que gera o diálogo salvífico. Uma noção relacional e interpessoal de revelação e de fé implica a necessidade de considerar o contexto no qual homens e mulheres experimentam a Deus e acolhem sua Palavra.
Portanto, elaborar teologia hoje significa refletir sobre a fé ou pensar sobre qualquer realidade humana significativa à luz da fé, de forma contextualizada, encarnada, inculturada. A teologia se faz nas teologias! Com os pés no chão das culturas, com um horizonte abrangente!

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

A Teologia dialética de Karl Barth

O assunto da teologia — a obra e a palavra de Deus na história do Imanuel e, portanto, também seu testemunho bíblico — possui uma estrutura específica, uma ênfase e uma tendência peculiares, uma direção irreversível. O teólogo tem o compromisso, a liberdade e a vocação de lhe dar espaço também em seu processo de conhecimento, no intellectus fidei. A ação e a palavra de Deus — e, correspondentemente, os textos do Antigo e do Novo Testamento — contêm duas realidades (que só na aparência se acham lado a lado, colocadas no mesmo nível)- Elas podem ser designadas como o “sim” e o “não” divinos, anunciados ao ser humano com poder.
Podem ser qualificadas igualmente como o evangelho que ergue o ser humano e a lei que o julga e corrige; ou como a graça que lhe é ofertada e o juízo que o ameaça; ou como a vida para a qual é salvo e a morte que fez por merecer, O teólogo deve ver, refletir, expressar ambas as realidades, tanto a luz quanto a sombra— em fidelidade à palavra de Deus e à palavra da Escritura que a testemunha. Mas é justamente nesta fidelidade que ele não poderá ignorar nem ocultar o fato de a relação existente entre esses dois momentos não ser idêntica aos movimentos alternantes de um pêndulo, repetidos com uniformidade, nem aos dois pratos da balança que, carregados com pesos iguais, fiquem balançando indecisos; aí há, pelo contrário, um “antes” e um “depois”, um “em cima” e um “embaixo”, um “mais” e um “menos”.

(..) Qualificamos a teologia como uma ciência alegre. Por que existem tantos teólogos melancólicos, que andam por aí com um rosto constantemente preocupado, quando não amargurado, sempre prontos para levantar ressalvas críticas e negações?É porque náo respeitam este terceiro critério do conhecimento teológico: a economia intrínseca de seu objeto – a sobreposição do sim de Deus ao seu não, do evangelho à lei, da graça à condenação, da vida à morte – mas querem transformá-la arbitrariamente em equivalência ou até invertê-la.

O teólogo encontra sua satisfação, torna-se e é uma pessoa satisfeita, que espalha contentamento tanto na comunidade quanto no mundo, quando seu conhecimento, na qualidade de intellectus fidei, segue a estrutura que lhe é dada com o objetio de sua ciência

(K. Barth, Introdução à Teologia Evangélica. 9 ed, São Leopoldo, Sinodal, 2007, p. 60-62)

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Teologia e formação presbiteral

Frei Bernardino Leers

No passado, os cursos de teologia estavam fechados dentro de seminários, mosteiros e conventos, em que estudantes, professores, formadores e confessores de uma mesma diocese ou instituto religioso conviviam juntos. Os estudantes tinham tempo para estudar e contato direto com seus professores, usavam a biblioteca da casa e tinham as mesmas revistas científicas à disposição. Comunidades fechadas, de oração, estudo e consumo, eram exclusivamente masculinas; não entravam mulheres ou empregadas e os estudantes não tinham contato regular com mulheres fora de sua casa. Ao menos para os estudantes de teologia, a vida era interna e isolada do grande mundo.
Essa situação mudou muito, com repercussão direta na vida acadêmica. Muitos institutos teológicos não são mais moradias, mas escolas, visitadas por professores e estudantes que moram separados conforme sua pertença religiosa, seminário ou convento. Acabou a exclusividade masculina celibatária, pois, em muitos cursos, o gênero feminino começou a ocupar seu lugar, como professoras, estudantes e funcionárias. Aos poucos, a produção teológica e moral perde sua unilateralidade masculina e se torna colaboração comum da Igreja, Povo de Deus, em vez de limitar-se ao clero e futuro clero.

Certamente, depois do Vaticano II, a mudança da relação entre professores e estudantes ficou clara. O professor foi garimpando o vastíssimo campo da literatura internacional de revistas e livros. Por todos os lados, novas ideias, novas visões, métodos e interpretações brotaram por cima da terra da monocultura tradicional. O progresso das ciências e as mudanças dos costumes dos povos ocidentais criaram novos problemas perante a consciência coletiva cristã que não se deixavam resolver simplesmente com armas obsoletas e linguagens antigas que deram certo ontem. Apesar de todas as resistências, a teologia da libertação fertilizou as terras latino-americanas e se espalhou em outras formas pelo mundo cristão todo. Por causa do crescimento e extensão da problemática religiosa e moral, uma velha tradição se quebrou. Por obrigação interna das ciências teológicas, um único professor para dar a matéria toda se tornou frustrante. A especialização se impõe, com o risco de perder a visão sobre a globalidade dos problemas que a sociedade apresenta. Sem a tranquilidade da posse doutrinária, o profissional se tornou um eterno aprendiz, que precisa estudar muitos sacramentos oficiais e entrar no terreno extenso das ciências humanas.
Também a situação dos estudantes mudou muito. Morando fora do instituto teológico e vivendo, muitas vezes, em casas comuns e abertas entre famílias comuns, costumam ter trabalhos pastorais fora, encontrando-se com a vida social no bairro ou cidade, com mistura normal de homens e mulheres de todas as idades e condições, com suas qualidades e sombras. Essa expansão da rede de relações, geralmente de escala pequena, vem acompanhada com todo o campo variado da TV, de programas, novelas e filmes, textos de cantores, mensagens da Internet, vídeos, revistas ilustradas populares e tanto mais. Por esses canais de comunicação e pelos contatos e encontros com grande variação de pessoas, o "mundo" joga uma massa confusa e controvertida de informações nas cabeças. Na atualidade, estudantes de teologia não ficam alheios à situação complexa da sociedade de que participam com seus contrastes, discriminações, exclusões e anarquia de valores e estilos de viver, embora o cristianismo seja ainda a bandeira para encobrir a realidade de cada dia.

O material humano que se apresenta para estudar teologia é mais variável do que no passado. Deixando de lado as diferenças de nível intelectual e de formação escolar já recebida, são, principalmente as motivações dos estudantes que merecem atenção. Se leigos, homens, mulheres ou religiosas escolhem estudar teologia, eles se dedicam para chegar à maior compreensão, querem aprofundar sua fé e se orientar melhor no caos da problemática religiosa e moral que a sociedade e a vida apresentam. Gostando e interessado ou não, o candidato ao presbitério arrisca considerar o estudo apenas como uma passagem inevitável para chegar à realização de sua vocação ou sonho de ser padre. Os anos de teologia são um corredor composto ao lado da formação espiritual em sua comunidade vivencial, seus interesses pessoais e seus trabalhos pastorais no sentido mais largo da palavra. Sem diploma e deveres acadêmicos cumpridos, não haverá a festa da ordenação sacerdotal. O estudo da teologia há de dar também habilitação profissional para funcionar como ministro da Igreja. Mas o estudo sério serve em primeiro lugar para o autoenriquecimento pessoal, para a boca falar o que enche o coração. Esse “encher” exige concentração, tempo e perseverança nos estudos.

Estudar teologia exige tempo e esforço. Na sensibilidade dos tempos atuais, o tempo passa depressa demais e ninguém tem tempo para nada. Não basta ouvir aulas, atender a chamada e pôr cruzinhas no Diário de Classe. Fazer tempo e gastar tempo para interiorizar o conhecimento teológico na vida pessoal são responsabilidades que se impõem mais do que no passado com seus compêndios de teologia dogmática e teologia moral. Evangelizar os outros é um belo ideal. Mas não funciona sem o evangelizador se evangelizar a si mesmo, arraigar sua fé e expressá-la melhor em sua própria vida e convivência. O povo não é tão ignorante que não é capaz de avaliar a autenticidade religiosa e moral de seus pastores. Firmeza e estabilidade pessoal não se formam de um dia para outro. Para transmitir eficazmente a mensagem da Igreja ao mundo contemporâneo, a reflexão teológica em processo atual precisa ser absorvida e fertilizar a própria vida. Onde o Concílio Vaticano II abriu de novo a convivência, o diálogo e a colaboração com o mundo atual, mistura do humano, sub-humano e desumano em toda sua variedade, o estudo preparatório de teologia para o futuro sacerdotal exige mais, muito mais esforço e concentração. Pela dinâmica interna e crescente complicação da vida do povo, a situação do aprendiz de teologia se torna paradoxal.
De um lado, dispõe de muitas informações e publicações da teologia e outras ciências, doutro, amadurece mais lentamente na medida em que a sociedade e a vida eclesial se complicam mais e a “clientela” do clero tem mais problemas existenciais e não acredita mais tanto em “o padre falou”. Se o clero quiser ser mais do que funcionário ou administrador da “empresa” eclesial, o esforço disciplinado nos estudos teológicos preparará um homem profundamente religioso e honesto para se comunicar com o povo dentro e fora das igrejas.

sábado, 29 de maio de 2010

Sinfonia da Cência



Canção sobre a ciência, com frases de 12 cientistas: Michael Shermer, Jacob Bronowski, Carl Sagan, Neil deGrasse Tyson, Richard Dawkins, Jill Tarter, Lawrence Krauss, Richard Feynman, Brian Greene, Stephen Hawking, Carolyn Porco e PZ Myers.

Veja mais em: http://symphonyofscience.com/