terça-feira, 17 de maio de 2011

O que é Ecoteologia

O mundo dá muitas voltas, e certas convicções de raiz retornam com novos matizes. A cultura da modernidade, a partir dos séculos XIV e XV, proclamou com orgulho a submissão da natureza ao ser humano. A filosofia moderna segue o mesmo caminho, ao sustentar a centralidade do homem, com a autonomia da razão científica, filosófica e subjetiva. A sociedade urbano-industrial e o progresso ilimitado pareciam um sonho sem fim. O antropocentrismo é uma tendência irreversível a se consolidar em todo o orbe. Mas algo levou a questionar tal visão: a consciência planetária. Somos filhos da Terra e responsáveis pelo seu futuro.

A contínua degradação do ecossistema, a crise da pretensão de totalidade da ciência, a crescente consciência do desenraizamento do ser humano em relação ao mundo natural e outros fatores criam condições favoráveis para a eclosão de vigoroso movimento ecológico no mundo inteiro.
A ecologia pode ser compreendida como ciência, ética e paradigma. As três dimensões se completam. Enquanto ciência, ecologia significa o estudo de como se inter-relacionam todos os seres que constituem a “comunidade de vida” em nosso planeta: os seres abióticos (água, ar, solo e energia do sol), os seres bióticos (microrganismos, plantas e animais) e o ser humano. Nascida da biologia, a ecologia ultrapassou seu campo inicial de conhecimento, ao propor estudar as relações, os contextos, e não somente determinados seres vivos em seu hábitat. Forja-se então a categoria “interdependência”: todos os seres estão em rede e as redes de matéria e energia são constitutivas na teia da vida.

A começar de seu objeto formal e do método, a ecologia postula a colaboração de muitos saberes. Somente se compreendem as relações na esfera da vida do planeta (biosfera) recorrendo simultaneamente a várias ciências, como biologia, física, química, geografia etc.... Fator semelhante acontece quando se estuda a ecologia humana, ao somar abordagens multidisciplinares da psicologia, da sociologia, da geografia humana, da economia, da história etc.
A abordagem científica da ecologia aproxima-se da teoria da complexidade de E. Morin, por reconhecer a incerteza e a incompletude como parte do conhecimento, que se mantém aberto para tecer novos fios e perceber relações ainda não compreendidas. A ecologia se liga também à holografia e a holística, enquanto percebe que em cada ser, biótico ou abiótico, há uma parte do cosmos, e que o todo é maior do que a soma das partes. A ecologia também se tornou um viés que influencia várias ciências teóricas e aplicadas, pois seu interesse se dirige à sustentabilidade, ou seja, a continuidade da vida no presente e no futuro do planeta. Daí surgem, por exemplo, a arquitetura e construção sustentáveis, a engenharia ambiental, o ecodesign na concepção de produtos, a gestão ambiental...

Ecologia, enquanto ética, diz respeito ao despertar da consciência (ecopercepção) e a empreender ações que tenham em vista a sustentabilidade. Inicia-se com a percepção de que a atual forma de o ser humano se relacionar com o ecossistema está equivocada e levará a humanidade e nossa “casa comum” a desastre sem precedentes. As mudanças climáticas fazem perceber, de forma inequívoca, que a atuação irresponsável do ser humano em relação ao ecossistema tem consequências graves e simultâneas, tais como alteração do ciclo das estações, perda da biodiversidade, contaminação (do solo, do ar e da água), perdas econômicas na agricultura, aumento de doenças respiratórias, custos econômicos não contabilizados e externalizados, etc.

A ética ecológica articula, de forma nova, a questão do indivíduo, do grupo, da instituição e das estruturas sociais e econômicas. Ela rejeita a exclusividade de fatores e a oposição entre subjetividade e coletividade. Propugna que a sociedade ecologicamente sustentável é possível quando se somam, de forma interdependente, atitudes individuais, ações familiares e coletivas, gestão institucional, adoção de políticas locais e nacionais, além de acordos internacionais em forma de protocolos vinculantes.
Assim, sustentabilidade postula também novo ethos humano e sociopolítico. Implica mudança de hábitos pessoais e comunitários de consumo e descarte. Interfere no processo de extração, produção, distribuição, consumo, descarte (ou reciclagem) dos bens e nos serviços a eles associados. Compreende por isso o triple botton line: econômico, social e ambiental. Transforma-se numa das grandes causas da humanidade, no presente e no futuro. Exige que o ser humano recubra o olhar de encantamento, percebendo que os outros seres não são “coisas”, que tome consciência de seu impacto sobre o planeta, da “pegada ecológica”, e assuma novas atitudes.

O paradigma ecológico, por sua vez, consiste na crítica e na superação do antropocentrismo moderno. O ser humano pode até se compreender como “centro consciente do universo conhecido”, mas ele nunca está sozinho. A espécie humana é fruto de longuíssimo processo de evolução da matéria. Somos filhos da Terra e parte da Terra. Por isso, a consciência planetária implica ética planetária: é preciso cuidar da Terra. Assim, ciência e ética se fundem, sem perder a especificidade, num modelo de compreensão do ser humano que se percebe como parte do meio ambiente e em contínua relação de interdependência com ele.

Qual a originalidade da ecoteologia, neste contexto? Brevemente:
— Trata-se de reflexão que resgata a unidade da experiência cristã e de sua formulação, apresentando em seu discurso a relação entre criação, história, encarnação, morte e ressurreição de Jesus, e o início da nova criação.
— Reelabora a teologia da criação na perspectiva da interdependência, mostrando que o ser humano, nos relatos bíblicos, é feito por Deus do barro da terra (consciência ecoplanetária), para cuidar do jardim, assim como para servir-se das outras criaturas, exercitando o senhorio como Deus é Senhor. Há relação estreita entre criação e salvação, e todos os seres estão nelas implicados.
— Explicita e fundamenta a ética do cuidado com o mundo, em ligação estreita com a moral social, ampliando sua abrangência.
— Propõe-se a superar a fragmentação das disciplinas teológicas e, na linha da teoria da complexidade, empenha-se no diálogo efetivo com as “ciências da natureza”.
— Estimula a espiritualidade ecológica, que associa no louvor e no serviço todos os seres à obra criadora, redentora e santificadora da Trindade.
— Estabelece teias de mútua aprendizagem com a teologia da libertação (dimensão social da fé), a teologia feminista, a teologia afro-ameríndia e a teologia das religiões.

A ecoteologia, que apenas se delineia no momento, contribui para superar visões equivocadas ou restritivas da relação do ser humano com o ambiente, assim como de sua própria autocompreensão. Ao se rebelar contra o racionalismo moderno e sua sede ilimitada de tudo explicar e esquadrinhar, o ser humano pode resvalar em posturas irracionais. Confunde-se reencantamento com ingenuidade ou espírito mágico. Exemplos palpáveis se encontram nos discursos de certos grupos religiosos sobre o sentido da doença, do mal, da injustiça social e do destino. Contrariamente ao orgulho antropocêntrico, que tudo submete ao ser humano, proliferam as crenças numa infinidade de determinismos cósmicos sobre o devir individual e coletivo. Além disso, a categoria “energia”, retirada da física quântica, seria uma panaceia que tudo justifica, sem nada explicar.

A holística pode servir à construção do cristianismo atualizado, coerente e cheio de vida; boa-nova para homens e mulheres desesperançados em busca de um fio condutor, sedentos por nova forma de enfocar a posição do ser humano em relação ao cosmos. O fato de comungar com nova mentalidade, compartilhada por grupos não cristãos ou pós-cristãos, não implica aceitação incondicional de todos os componentes. Existem na holística “sinais dos tempos” e sementes do Verbo que pedem reconhecimento e valorização. Há que evitar, no entanto, um pretenso neouniversalismo que a tudo dilui e relativiza, esvaziando o conteúdo da proposta de Jesus Cristo, a novidade radical do Evangelho. Diferentemente do panteísmo, que abole as fronteiras entre o humano e o divino, a ecoteologia propõe o panenteísmo. Compreende que todos os seres estão em Deus e para ele se destinam, pois foram criados pelo Pai, por meio da Palavra (o filho), no Espírito. Este sustenta, renova e leva à consumação a criação.

Em suma, a ecoteologia contribui para ressituar o ser humano à luz da fé cristã, no momento atual de crise global, e contribui para consolidar a consciência planetária: somos filhos da Terra e responsáveis por seu futuro.

A ecoteologia tem diante de si duplo compromisso programático. O primeiro consiste em reenfocar temas e disciplinas teológicas, considerando a participação de todos os seres no projeto de redenção e a premência do compromisso ético com a “salvaguarda da criação”. O segundo compreende a adoção de novo paradigma, bioantropocêntrico, que influencia a epistemologia teológica e propugna a unidade entre o conhecimento intelectual e o experiencial-místico.
A ecoteologia se encontra em situação semelhante àquela vivida, faz alguns anos, pela teologia da libertação, quando adotou conceitos e categorias novos, e deve testar a pertinência, a legitimidade e a adequação deles. A dessemelhança reside no acento: não somente na práxis transformadora de cunho social, mas na também na postura ética e na mística que animam a existência humana na relação com a biosfera. Enquanto prática libertadora, a ecoteologia e sua vertente ética ampliam a percepção da prática libertadora, estimulando o compromisso socioambiental dos cristãos.

Afonso Murad
Fonte: Introdução a Teologia - Loyola, 2011, cap. 8.

quarta-feira, 16 de março de 2011



































































Disponibilizamos para você um esquema de aula referente à História da Teologia. Compreende o período da Patrística. Mais informações no cap. 3 do Livro "A casa da Teologia" e na literatura especializada (Prof. Afonso Murad).






















segunda-feira, 14 de março de 2011

O que é teologia?

A teologia pode ser comparada a uma árvore. Pois, assim como a árvore é composta de raízes, tronco, galhos e frutos, a teologia tem todos esses elementos.
A raiz da teologia é o próprio Deus. Ele é o fundamento de toda a teologia, sua fonte e seu ápice. Assim como uma árvore sustenta-se por suas raízes, pois são elas que a seguram firme na terra, assim a teologia firma-se em Deus, tendo ele como seu ponto de partida e de chegada.
O tronco de uma árvore pode ser comparado com uma “ponte”, pois os nutrientes que as raízes absorvem são levados até os galhos através do tronco e, produzindo assim seus frutos. Os meios de “produzir teologia” são as Sagradas Escrituras, tanto para católicos e protestantes e, para nós católicos, a Tradição e o Magistério Eclesiástico. Estes elementos nos ajudam a fazer teologia e levar a seiva que dá a vida para os galhos e a produzir frutos. Podemos chamar o primeiro elemento de Revelação.
Os galhos, as folhas e os frutos são sinais de que uma árvore está viva. Os diversos “galhos” da teologia seriam as diversas áreas de estudo e disciplinas desta ciência: dogmática, bíblica, histórica, moral, etc.
Os frutos, podemos comparar com o resultado da prática teológica, que aplicados na pastoral, nas comunidades e nos centros acadêmicos, frutificam, fazendo expandir o Reino de Deus no mundo.
Cada fruto trás em si sementes. A teologia também, e está aí a frutificar!
Emerson Andrade
Estudante do primeiro ano de teologia do ISTA, Belo Horizonte

domingo, 13 de março de 2011

O futuro da teologia

Entrevista ao teólogo latino-americano José Maria Vigil

Qual é o futuro da teologia? Para onde ela vai?
Para alguns, a pergunta é inútil, porque a teologia seria sempre a mesma, uma teologia perene. E deveria ser assim também no futuro. Pelos séculos dos séculos. Ela deveria buscar, simplesmente, ser fiel à sua missão de sempre e de "custodiar fielmente o depósito da fé". Mas essa visão estática não resiste à verificação histórica. Porque, na realidade, a teologia não fez nada mais do que mudar, evoluir, constantemente, desde o seu início.

Segundo a definição anselmiana, a teologia é "fides quaerens intellectum", fé que quer compreender. "Fides", aqui, não é a fé como uma entidade abstrata, sem sujeito... Quem quer compreender são os sujeitos crentes, que querem entender aquilo em que creem. Pois bem, com a mudança dos sujeitos crentes, geração após geração, em contextos históricos que em cada tempo são diversos, a sua busca de compreensão – "quaerens intellectum" – inevitavelmente evoluiu (...).

Na última parte do século passado, as comunicações, as migrações, o turismo, a própria mundialização diversificaram enormemente as sociedades. A maior parte do globo se tornou pluricultural e plurirreligiosa. Desapareceram quase totalmente as sociedades homogêneas, monoculturais e monorreligiosas em que se podia fazer teologia no interior de uma única religião, sem compreender as perguntas que surgem das reivindicações de verdade de outras religiões.

Antes ou depois, com maior ou menor consciência, os crentes querem finalmente compreender a relação da sua própria fé com os outros credos e reinterpretar as antigas respostas herdadas à luz desse pluralismo. É a teologia das religiões (nunca na história a teologia havia se colocado a questão das outras religiões), que depois se chamou teologia do pluralismo (que se pergunta: esse pluralismo é de fato ou de direito?) e que desemboca, enfim, na teologia pluralista: uma perspectiva nova, antes inimaginável na maior parte das religiões.

Se na sociedade convivem, agora, inevitavelmente, muitas religiões (…), o crente não quer saber só da sua própria religião, mas quer saber também o que as outras dizem. A teologia responde não com a resposta única de uma só religião, mas com o leque de respostas que as diversas religiões fornecem, para que a pessoa possa se enriquecer com tudo isso. Nunca aconteceu algo semelhante na história da teologia: trata-se da teologia comparativa.

Nesse contexto inter-religioso, são muitos os crentes – mesmo que ainda representem uma exceção – que têm uma experiência religiosa plural, que vivem a sua própria experiência religiosa em mais de uma religião. Têm um duplo pertencimento ou às vezes um pertencimento múltiplo. Obviamente, são muitos mais aqueles que acreditam que isso não seja possível ou que seja errado... e fazem bem ao não buscar experimentar. Mas o fato surpreendente daqueles que vivem um pertencimento múltiplo interpela a teologia com uma outra pergunta inédita: por que não deveria ser possível uma teologia inter-religiosa, multifé? A possível teologia inter-religiosa, apoiada por alguns, desprezada por outros, está aí, mesmo que em fase de experimentação (...).

A crise da religião tradicional, que é vivida paradoxalmente junto a uma revivescência de novas formas religiosas, já impôs praticamente a distinção clara entre religião e espiritualidade. Esta última é a dimensão profunda, enquanto a religião parece pertencer mais ao âmbito das formas, como interface que o ser humano criou para expressar aquela. Essa convicção, que já se afirmou em boa parte da sociedade atual, põe novas perguntas aos crentes. Eles querem entender o que significa então a religião: se a religião é, como sempre haviam pensado, a mediação primária para a espiritualidade, o único e principal canal de comunicação com o divino, ou se a religião é, ao invés, uma interface útil enquanto sirva, mas substituível ou prescindível quando encontra melhores mediações.

Nessa situação, como dissemos, as perguntas de muitos crentes são agora, nesse sentido, pós-religião: vão além das religiões e além da religião, embora estejam mais interessadas do que nunca na espiritualidade. A resposta a perguntas inscritas nessa perspectiva contribui com a elaboração de uma teologia pós-religiosa, laica, humana, preocupada com o papel humanizante da espiritualidade, muito além das religiões.

Uma vitalidade efervescente
Olhando para trás, podemos dizer que nos últimos 100 anos descobrimos mais mudanças evolutivas na teologia do que os que foram experimentados em toda a sua história. Como dizíamos, a sua evolução se acelerou. Surpreende-nos com a sua efervescente vitalidade. Ela chegou à sua fase final? Obviamente não. Não sabemos como o seu surpreendente itinerário seguirá em frente, mas apostamos em um brilhante futuro.

Não é preciso insistir, porque é óbvio que nem toda a teologia deve passar por cada uma dessas etapas... Nem que a aparição de uma nova etapa signifique desacreditar os modelos de teologia anteriores... O conhecimento humano, as culturas e também o mundo religioso evoluem por ondas sucessivas, mediante novos paradigmas que se apresentam de improviso, de modo surpreendente, caótico, não linearmente previsto. Encontram-se, cruzam-se, chocam-se, originam ou tornam possíveis outros paradigmas e tudo contribui para fecundar mutuamente o caminho rumo a etapas superiores. Os novos paradigmas nem sempre substituem os anteriores: com maior frequência, simplesmente se somam e se fecundam mutuamente. Nesse sentido, muitas teologias podem conviver juntas. Sempre haverá teologias confessionais enquanto houver confissões no mundo religioso. Essa forma de teologia não deve ser temida, será sempre necessária no seu âmbito: as formas de teologia supraconfessionais não vêm para expeli-la ou para substituí-la, mas sim para cobrir outros espaços em que aquela não foi aceita porque nem foi compreendida, isto é, na sociedade multirreligiosa, nos meios de comunicação laicos, na universidade laica...

A maior parte das formas de teologia dos últimos tempos pode continuar, cada uma no nicho em que foi sistematizada. Mas a meu ver isso não impede que, na evolução da teologia, possa se descobrir uma direção, um sentido que indique um certo perfil previsível da teologia do futuro.

Essa teologia teria as seguintes características:
- Não será mais uma teologia que coloque muito o acento sobre o "teo", porque aumentará sempre mais o conhecimento, em todas as latitudes, de que o teísmo é um modelo de compreensão/expressão da nossa concepção da divindade, não uma descrição certa e menos ainda imprescindível da "Realidade última";
- Não será, nem com muito entusiasmo, "logia", porque nesse ponto já descobrimos em nível mundial as deficiências da unilateralidade do discurso racional que exalta o "logos" a despeito de outras dimensões mais sutis do conhecimento humano;
- Será confessional quando for útil – para o serviço teológico no interior de ministérios ou âmbitos de uma determinada religião, obviamente – mas também saberá ser, quando necessário, não confessional, ecumênica e supraconfessional, em função do público ao qual se dirige e do âmbito em que se inscreve;
- Será, em todo o caso, pluralista, isto é, superará o complexo de superioridade religiosa do qual quase todas as religiões do mundo sofreram, um complexo que as levou a se considerarem diretamente divinas, a única religião válida do mundo. Ora, diante da evidência de que todas as religiões são lâmpadas da riqueza infinita da Realidade última, perceberão que o pluralismo religioso é o que foi "querido por Deus", em vez de ser um mal a ser combatido;
- Mesmo quando for confessional, certamente deverá ser, sempre mais, uma teologia comparativa: na sociedade plural, deverá se encarregar da palavra das outras religiões (...) mais do que permanecer dentro de restritos limites autorreferenciais;
- Mais do que simplesmente comparativa, será muitas vezes inter-religiosa, interfé, intercrente, multirreligiosa, multifé... (é ainda prematuro um vocabulário definitivo). Mesmo que hoje ela pareça ser impossível para muitos, para outros ela é uma possibilidade já em curso. Não é absolutamente excepcional a experiência de dupla ou múltipla pertença religiosa, mesmo que para muitos isso seja inimaginável. Aqueles que a experimentam estão em condições de elaborar esse tipo de teologia, e já estão em curso experiências provisórias, mas promissoras;
- Se poderá ser não confessional, é óbvio que ela poderá ser "laica", não oficial, nem clerical, nem pertencente a alguma instituição religiosa: uma teologia fora da instituição, laica, civil, espiritual, humana. Quem souber abrir os olhos provavelmente descobrirá que essa teologia já está em curso e que abre caminho, muitas vezes sem esse nome. Não é uma teologia convencional, que trabalha de maneira confessional, mas sim uma teologia que pretende simplesmente "humanizar a humanidade";
- Desde os tempos da teologia da libertação, acredito que essa qualificação não é facultativa, mas essencial: não existe teologia se não for libertadora. Mas a velha forma de teologia da libertação deve ser fecundada – e já o está fazendo – com os novos paradigmas que a seguiram. Não pode continuar sendo exclusivista, como foi originariamente, não por vontade explícita, mas de maneira inconsciente. Não poderá nem ser tão antropocêntrica como foi, também involuntariamente: agora, deverá ser cosmo-biocêntrica, para humanizar a humanidade e o planeta, a partir de uma perspectiva de eco-justiça.

Podemos esperar mudanças positivas na teologia?

Fecundado por tantos paradigmas novos e por tantas experiências em curso, o futuro da teologia é promissor e sedutor para quem se deixa fascinar por essa inquietação radical do ser humano, do ser humano religioso que sempre busca entender a sua própria religião.
Sem dúvida, estamos em um tempo de mudança radical, de formas novas de teologia que não foram nem sonhadas. O futuro é de quem se arrisca apontando para essa tarefa de refundação teológica.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Desabafo de um professor de teologia

Prof. Calvani

Sou um professor de Teologia em crise. Não com minha fé ou com minhas convicções, mas com a dificuldade que eu e outros colegas enfrentamos nos últimos anos diante dos novos seminaristas enviados para as faculdades de teologia evangélica. Tenho trabalhado como Professor em Seminários Evangélicos presbiterianos, batistas, da Assembléia de Deus e interdenominacionais desde 1991 e, tristemente, observo que nunca houve safras tão fracas de vocacionados como nos últimos três anos.
No início de meu ministério docente, recordo-me que os alunos chegavam aos seminários bastante preparados biblicamente, com uma visão teológica razoavelmente ampla, com conhecimentos mínimos de história do cristianismo e com uma sede intelectual muito grande por penetrar no fascinante mundo da teologia cristã.
Ultimamente, porém, aqueles que se matriculam em Seminários refletem a pobreza e mediocridade teológica que tomaram conta de nossas igrejas evangélicas.
Sempre pergunto aos calouros a respeito de suas convicções em relação ao chamado e à vocação. Pois outro dia, um calouro saiu-se com a brilhante resposta: "não passei em nenhum vestibular e comecei a sentir que Deus impedira meu acesso à universidade a fim de que eu me dedicasse ao ministério". Trata-se do mais típico caso de "certeza da vocação" adquirida na ignorância.
E, invariavelmente, esses são os alunos que mais transpiram preguiça intelectual.A grande maioria dos novos vocacionados chega aos Seminários influenciada pelos modismos que grassam no mundo evangélico. Alguns se autodenominam "levitas". Outros, dizem que estão ali porque são vocacionados a serem "apóstolos".
Ultimamente qualquer pessoa que canta ou toca algum instrumento na igreja, se auto-denomina "levita". Tento fazê-los compreender que os levitas, na antiga aliança, não apenas cantavam e tocavam instrumentos no Templo, como também cuidavam da higiene e limpeza do altar dos sacrifícios (afinal, muito sangue era derramado várias vezes por dia), além de constituírem até mesmo uma espécie de "força policial" para manter a ordem nas celebrações. Porém, hoje em dia, para os "novos levitas" basta saber tocar três acordes e fazer algumas coreografias aeróbicas durante o louvor para se sentirem com autoridade até mesmo para mudar a ordem dos cultos.
Outros há, que se auto-intitulam "apóstolos". Dentro de alguns dias teremos também "anjos", "arcanjos", "querubins" e "serafins". No dia em que inventarem o ministério de "semi-deus" já não precisaremos mais sequer da Bíblia.
Nunca pensei que fosse escrever isso, pois as pessoas que me conhecem geralmente me chamam de "progressista". Entretanto, ultimamente, ando é muito conservador. Na verdade, "saudosista" ou "nostálgico" seriam expressões melhores.
Tenho saudades de um tempo em que havia um encadeamento lógico nos cultos evangélicos, em que os cânticos e hinos estavam distribuídos equilibradamente na ordem do culto.
Atualmente os chamados "momentos de louvor" mais se assemelham a show ensurdecedores ou de um sentimentalismo meloso.
Pior: sobrepujam em tempo e importância a centralidade da Palavra e da Ceia nas Igrejas Protestantes. Muitas pessoas vão à Igreja muito mais por causa do "louvor" do que para ouvir a Palavra que regenera, orienta e exige de nós obediência. Dias atrás, na semana da Páscoa comentei com um grupo de alunos a respeito da liturgia das "sete palavras da cruz" que seria celebrada em minha Igreja na 6a feira da paixão. Alguns manifestaram desejo de participar. Eu os avisei então que se tratava de uma liturgia que dura, em média, uma hora e meia, durante a qual não é cantado nenhum hino (pelo menos na tradição de minha Igreja - Anglicana), mas onde lemos as Escrituras, oramos e meditamos nas sete palavras pronunciadas por Cristo durante a crucificação. Ao saberem disso, um deles disse: "se não houver música, não há culto".
Creio que, em parte, isso é reflexo da cultura pop, da influência da "Geração MTV", incapaz de perceber que Deus pode ser encontrado também na contemplação, meditação e no silêncio. Percebo também que alguns colegas pastores de outras igrejas freqüentemente manifestam a sensação de sentirem-se tolhidos e pressionados pelos diversos grupos de louvor. O mercado gospel cresceu muito em nosso país e, além de enriquecer os "artistas" e insuflar seus egos, passou a determinar até mesmo a "identidade" das igrejas evangélicas. Houve tempo em que um presbiteriano ou um batista sabiam dar razão de suas crenças.
Atualmente, tudo parece estar se diluindo numa massa disforme. Trata-se da "xuxização" ("todo mundo batendo palma agora... todo mundo tá feliz ? tá feliz!") do mundo evangélico, liderada pelos "levitas" que aprisionam ideologicamente os ministros da Palavra. O apóstolo Paulo dizia que a Palavra não está aprisionada. Mas, em nossos dias, os ministros da Palavra, estão - cativos da cultura gospel.
Tenho a impressão de que isso tudo é, em parte, reflexo de um antigo problema: o relacionamento do mundo evangélico com a cultura chamada "secular". Amedrontados com as muitas opções que o "mundo" oferece, os pais preferem ter os filhos constantemente sob a mira dos olhos aos domingos, ainda que isso implique em modificar a identidade das Igrejas. E os pastores, reféns que são dos dízimos de onde retiram seus salários, rendem-se às conveniências, no estilo dos sacerdotes do Antigo Testamento.
Um aluno disse-me que, no dia em que os evangélicos tomarem o poder no Brasil acabarão com o carnaval, as "folias de rei", os cinemas, bares, danceterias etc. Assusta-me o fato de que o desenvolvimento dessa sub-cultura "gospel" torne o mundo evangélico tão guetizado que, se um dia, realmente os evangélicos tomarem o poder na sociedade, venham a desenvolver uma espécie de "Talibã evangélico". Tal como as estátuas do Buda no Afeganistão, o "Cristo Redentor" estará com os dias contados.
Esses jovens que passam o dia ouvindo rádios gospel e lendo textos de duvidosa qualidade teológica, de repente vêm nos Seminários uma grande oportunidade de ascensão profissional e buscam em massa os seminários. Nunca houve tanta afluência de jovens nos seminários como nos últimos anos.
Em um seminário em que trabalhei (de outra denominação), os colegas diziam que a Igreja, em breve teria problemas, pois o crescimento da Igreja não era proporcional ao número de jovens que todos os anos saíam dos Seminários como bacharéis em teologia, aptos para o exercício do ministério.
A preocupação dos colegas era: onde colocar todos esses novos pastores?Na minha ingenuidade, sugeri que seria uma grande oportunidade missionária: enviá-los para iniciarem novas comunidades em zonas rurais e na periferia das cidades. Foi então que um colega, bastante sábio, retrucou: "Eles não querem. Recusam-se! Querem as Igrejas grandes, já formadas e estabelecidas, sem problemas financeiros".
De fato, percebi que alguns realmente se mostravam decepcionados ao saberem que teriam que começar seu ministério em um lugar pequeno, numa comunidade pobre, fazendo cultos nos lares, cantando às vezes "à capella" e sem o apoio dos amplificadores e mesas-de-som.
Na maioria dos Seminários hoje, os alunos sabem o nome de todas as bandas gospel, mas não sabem quem foi Wesley, Lutero ou Calvino.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Por que uma teologia contextualizada?

Afonso Murad
Segundo S. Bevans, fazer teologia contextual não é algo opcional, ou que diz respeito somente ao terceiro mundo. Ao contrário, o intento de compreender a fé cristã em termos de um contexto particular se trata de um imperativo teológico. Por que a teologia tem que ser contextual hoje? Fatores externos e internos contribuem para tal prioridade.
Podem-se enumerar quatro fatores externos. Em primeiro lugar, há uma insatisfação visível com as clássicas abordagens da teologia. No continente europeu, as variadas filosofias clássicas que no passado serviram de base à teologia (sobretudo à católica), não sintonizam com o pensamento contemporâneo. São insatisfatórias para interpretar a atual complexidade da existência humana. Faz-se necessário então estabelecer nova relação da teologia com os saberes atuais, para que ela recupere sua significatividade. Questiona-se a teologia como imutável, terminada, como “theologia perennis”, em nome da relevância.
Nos outros continentes, cresce também a convicção de que é necessário rever modelos culturais e formas de pensamento que estão na base da teologia ocidental. Para o teólogo da Índia R. Panikar, por exemplo, não se aceita no seu país o princípio da contradição, que está na base da lógica ocidental. Para sua cultura, as coisas podem ser e não ser ao mesmo tempo.
Em segundo lugar, reconhece-se que a teologia clássica carregou, de forma inconsciente, a ideologia dominante centro-européia. Considerou com universal aquilo que era típico de um determinado grupo humano. Assim, legitimou preconceitos e formas de opressão. Teólogo negro, protestante e norte americano, James Cone denunciou em suas obras como a teologia tradicional ignora a experiência dos negros, não ouve seus clamores e torna-os invisíveis. Outros escritores mostraram que a clássica ênfase na salvação individual e na ética intimista afetou as culturas que compreendiam a pessoa somente em relação ao seu grupo.
Em terceiro lugar, a crescente identidade das Igrejas locais demanda verdadeiras teologias contextuais. Recordando a clássica imagem de Lima Vaz, à medida que as Igrejas locais deixam de ser “espelho”, que se contentam em refletir o que determina o poder central ou copiar as práticas de outras denominações, e passam a ser “fontes”, necessitam de teologias contextuais. Trata-se de uma verdadeira descolonização da teologia.
Por fim, o quarto fator externo apontado por Bevans consiste na ampliação do conceito de “culto” e “cultura”. Até então, vigorava a idéia que existia somente uma cultura de valor, universal e permanente. Uma pessoa culta seria aquela que assimilaria os comportamentos, a visão, a forma de se expressar, a língua e manifestações artísticas dela emanadas. Hoje se compreende a cultura como conjunto de significado e de valores que expressam um estilo de vida. Reconhece-se que há muitas culturas ao redor do mundo. Assim, uma pessoa é culta enquanto se socializa e elabora de forma reflexa e profunda os elementos de determinada cultura, levando-a ao grau mais elevado possível de valores e significados. Ora, a uma concepção exclusivista de cultura correspondia a visão também exclusivista da fé cristã e da teologia. E tal concepção ser revela parcial e anacrônica.
Fatores internos à própria fé e à teologia justificam o imperativo de contextualizar a teologia. O primeiro e decisivo diz respeito à natureza encarnada do cristianismo. Deus tanto amou o mundo que compartilhou sua vida divina, fazendo-se carne (Jo 1,14; 3,16). Não de forma geral, mas de maneira particular. O filho de Deus se encarna numa pessoa humana de determinada etnia, gênero e cultura. A lição da encarnação, de se fazer particular para poder comunicar-se e dialogar, vale como figura inspiradora para a teologia contextualizada.
O segundo fator diz respeito à dimensão sacramental-simbólica da realidade. Deus não se revelou em Jesus com idéias abstratas, pretensamente universais, mas sim na realidade concreta humana. Por extensão, as coisas ordinárias da existência humana passam a ser transparência da presença de Deus. Assim, a cultura, a experiência humana, os eventos históricos, os elementos centrais que constituem os contextos, tornam-se parte integrante do processo de acolhida à revelação de Deus em Jesus.
O terceiro fator aponta para a mudança do conceito de revelação. Não se concebe mais como verdade eterna, delimitada numa linguagem divina pretensamente inalterável e imutável, pairando fora do tempo. E sim como a auto-comunicação de Deus através de gestos e palavras na história. A um conceito mais abrangente de revelação corresponde também o da teologia, como esforço de compreender e interpretar, sempre na história em mudança, ao auto-oferta divina que gera o diálogo salvífico. Uma noção relacional e interpessoal de revelação e de fé implica a necessidade de considerar o contexto no qual homens e mulheres experimentam a Deus e acolhem sua Palavra.
Portanto, elaborar teologia hoje significa refletir sobre a fé ou pensar sobre qualquer realidade humana significativa à luz da fé, de forma contextualizada, encarnada, inculturada. A teologia se faz nas teologias! Com os pés no chão das culturas, com um horizonte abrangente!