quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Entrando na Casa da Teologia

Aqui você encontra um material didático referente ao capítulo 1 do livro "Casa da Teologia", para utilizar em cursos de formação. Para ver, siga as setas abaixo. Para baixar, clique no eslaide, que lhe mandará para o "Slideshare". Então, clique em "Save as" (Salvar como) e dê um nome e direção ao arquivo, no seu computador.



terça-feira, 6 de novembro de 2012

Fazer teologia na América Latina e no Caribe

Jon Sobrino (El Salvador)

A teologia não é o primeiro a ser pensado. O primeiro é a realidade e, no caso da Teologia, a realidade absoluta. Com sua agudeza habitual, Dom Pedro Casaldáliga, ao se referir ao absoluto, diz que “tudo é relativo, menos Deus e a fome”. O absoluto é Deus, e o coabsoluto são os pobres. Fazer teologia é, então, ajudar, a partir do pensar, para que Deus seja mais real na história e que os pobres – a fome – deixem de sê-lo. Para que o pensar possa ajudar nessa tarefa, lembremos o que Ellacuría entendia por inteligir a realidade. Explicava-o em três passos:
- O primeiro é “assumir a realidade”; em palavras simples, captar como são e como estão as coisas. Em 2006, olhando o mundo universo, Casaldáliga escrevia: “Hoje, há mais riqueza na Terra, mas há mais injustiça. Dois milhões e meio de pessoas sobrevivem na Terra com menos de dois euros por dia, e 25 mil pessoas morrem diretamente de fome, segundo a FAO. A desertificação ameaça a vida de 1,2 milhões de pessoas em uma centena de países. Aos emigrantes é negada a fraternidade, o solo abaixo dos pés. Os Estados Unidos constroem um muro de 1,5 mil quilômetros contra a América Latina. E a Europa, ao sul da Espanha, levanta uma cerca contra a África. Tudo o que, além de iníquo, é programado”. O presente não o desmente.

- O segundo passo é “encarregar-se da realidade”. Sua finalidade não consiste simplesmente em fazer crescer conhecimentos por bons e necessários que sejam, mas em fazer crescer a realidade. E em uma direção determinada: a da salvação, da compaixão, da misericórdia e do amor. A teologia é intellectus amoris.

- O terceiro passo é “carregar a realidade”, e com uma realidade que é pesada. Sob ela vivem os anawim da Escritura, os encurvados. A carga que pode fazer até com que privem a vida de alguém. Teólogos e teólogas sofreram perseguição, e alguns acabaram mártires. Isso pode acontecer quando o fazer teologia está perpassado de atitude ética.
Costumamos acrescentar um quarto passo: “deixar-se carregar pela realidade”. O trabalhar e o sofrer assim também podem ser graça para quem faz teologia. Então, o teólogo sabe que faz parte do povo pobre, não é externo a ele. Sabe que é levado por ele e recebe o agradecimento dos pobres. Fazer teologia é, então, “uma pesada carga leve”, como dizia Rahner, que é o Evangelho.
(Fonte: entrevista Revista IHU, outubro 2012)

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Teologia no espaço público

J. Konings
Minhas reflexões sobre o ser cristão devem ter um lugar no espaço público, ao lado da economia e do futebol. Ainda que Deus me seja mais íntimo do que meu próprio íntimo, como disse Agostinho, o lugar onde ele manifesta sua presença é o mundo que eu habito e que me habita –e que me dá as palavras do meu dizer.

Deus não é um passageiro clandestino, confinado no espaço sagrado. A fé em Deus não é propriedade particular, mas riqueza a ser partilhada. A teologia, explicação de nossa percepção de Deus e de nossa fé, não deve ficar reservada a correligionários usando jargão inacessível. Não é só para padres e assemelhados, enquanto para os fiéis comuns bastaria o Catecismo. Aliás, o próprio Catecismo se apresenta na linguagem da teologia ensinada nos seminários... Melhor seria se fosse a da teologia pública!
Convém que a explicação da fé cristã seja oferecida no espaço público, em diálogo com os interlocutores honestos e sinceros que aí se encontrarem, crentes ou não. Em primeiro lugar, porque aquilo que não se pode explicar aos outros ‘animais racionais’ talvez não seja racional. Por racional não entendemos o raciocínio formal, silogístico, mas aquilo que razoavelmente se pode conversar com as pessoas normais, mostrando que faz sentido e não é absurdo.

Uma segunda razão para o diálogo público da teologia é que esta se insere numa tradição cultural, dela se alimenta e, por sua vez, a enriquece. Os autores bíblicos não recearam acolher, dos povos vizinhos, determinadas imagens, símbolos e conceitos que traduzissem a própria percepção de Deus –adaptando-os e marcando as devidas diferenças. Isso lhes permitia dialogar com seus semelhantes que encontravam no intercâmbio cultural, comercial etc. O grande exemplo de ‘inserção cultural’ foi a teologia dos primeiros cristãos, que traduziram os conceitos e imagens bíblicos, enraizados na cultura judaica, para o mundo grego e latino, contribuindo decisivamente para a cultura da Ásia ocidental e da Europa.

Uma terceira razão é que a teologia pode apontar para todos os dotados de razão os limites dessa mesma razão, e isso faz bem. É importante poder dizer, em termos que as pessoas em geral entendem, que nossa percepção humana não é a última palavra (nem a primeira). A teologia traduz para a compreensão universal almejada pela racionalidade –e consciente dos limites desta–, a percepção subjetiva da transcendência, a poesia e a mística, sem as quais o ser humano, crente ou não, se torna inumano. 

Uma quarta razão é que a teologia fala de coisas práticas que devem ser partilhadas com os demais sujeitos no espaço humano e cidadão. Por exemplo, a questão operária. Toda a tradição bíblica judaica e cristã insiste no tratamento justo do trabalhador. “No próprio dia darás ao trabalhador seu salário, antes do pôr do sol” (Deuteronômio 24,15). Isso não pode ficar escondido no debate público em torno do trabalho. Outro exemplo: o cuidado do meio ambiente. A representação bíblica de Adão como jardineiro e cuidador do jardim do Éden (Gênesis 2,15) contém uma mensagem para o atual debate. O mesmo se diga da unidade de homem e mulher, unidos em amor constante, que se desprende de Gênesis 2,23-24. O crente não pode guardar suas convicções práticas para si, a não ser que se encapsule numa sociedade à parte. O que, hoje em dia, seria impossível, pois há muito gente se movimentando no mesmo espaço...
Na mesma linha, em vista inclusive da atual histeria em torno do ‘Estado laico’ – que já espetei e tornarei a denunciar–, não se pode excluir do espaço público, nem da discussão política, compreensões da vida humana e opções práticas inspiradas pela convicção religiosa. Esta é tão humana quanto uma ideologia política. Desde que tal convicção seja argumentada em contexto e modo democráticos.

Finalmente, importa contemplar o diálogo entre as diversas religiões e mundivisões, mesmo ateias ou agnósticas. Mas isso exige uma explanação mais ampla, que deixo para outra oportunidade.
Cristãos menos acostumados a esta abordagem talvez temam que tal teologia saia do âmbito da fé e se torne ‘secularizada’. Isso seria perigoso somente se ‘secular’ significasse alheio a Deus. Mas se se entende por secularidade o que diz respeito à realidade do mundo (‘saeculum’ em latim significa mundo), é um grande avanço para a fé, pois torna Deus mais presente no mundo que ele mesmo fez e faz surgir. A ‘encarnação’ de Deus é uma doutrina fundamental da fé cristã. Por isso, o mundo humano deve ser o mundo em que a presença e ação de Deus são ‘levados à fala’. Entre pessoas respeitosas, deve ser tão natural falar de Deus e de sua fé como falar de futebol (o que também só se deve fazer com pessoas que tenham respeito...).

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Tradição intelectual

Para mim, tradição intelectual é um benefício inestimável. Significa não começar tudo de zero, mas sentir-se rico, desde o começo, do cabedal de trabalho, de pesquisa, que nos foi legado pelos que nos precederam. A tradição é um certo clima no qual nascemos para a vida do espírito. É o que nos permite inscrever nossos próprios talentos, nossos próprios esforços, nossas próprias pesquisas numa continuidade que os enriquece. Uma tradição é para a vida intelectual o mesmo que a fraternidade para nossos corações.

Sim, tradição é um benefício inestimável. Deve ser assim para o jovem estudante que entra numa comunidade que dispõe de uma tradição intelectual, como o é para uma criança que nasce numa família culta : antes mesmo de aprender a ler, essa criança já entra num certo clima, já respira um ar que vai facilitar sua entrada no mundo da cultura. Pude me dar conta e apreciar ainda mais esse benefício quando conheci províncias dominicanas de fundação mais recente, e que não beneficiaram antes dessa herança intelectual. É bonito e entusiasmante começar de zero uma fundação; mas é preciso muita inteligência, muito empenho e dedicação ao trabalho para superar essa lacuna.”
Fonte: Yves Congar, Une vie pour la vérité. Jean Puyo interroge le Père Congar, coleção « Les interviews », Ed. Le Centurion, Paris, 1975, p. 35 (tradução: Magno Vilela)

domingo, 4 de dezembro de 2011

O momento atual da teologia

Nesta entrevista concedida a Flávio Senra, o teólogo João Batista Libanio apresenta um quadro resumido dos principais desafios e oportunidades da Teologia no atual cenário brasileiro.

Como você avalia a situação atual da Teologia?
O mapa teológico apresenta-se vastíssimo. Difícil de emitir juízo global. A tendência acadêmica atual, forte nas universidades e incentivada pela CAPES, acentua a especialização em autores, textos cada vez mais restritos. Avança-se em profundidade textual. Perde-se em amplidão de horizontes, em sínteses complexas. Abrem-se novos campos de estudo como o da teologia das religiões. Faustino Teixeira tornou-se referência importante nesse setor. Com efeito, a proliferação dos cursos de Ciências das Religiões está a produzir literatura de diálogo nessa fronteira. Falta ainda clareza. Mas progride-se em oferecer alimento religioso para ambientes alheios à fé cristã.
A espiritualidade tem seduzido excelentes teólogos e teólogas. Assinalo aqui alguns últimos escritos de Maria Clara L. Bingemer, além de Faustino Teixeira que visita bastante esse departamento teológico. A ecologia tem ocupado as principais preocupações de L. Boff com vastíssima obra. Os clássicos tratados de teologia ainda provocam textos dirigidos principalmente aos estudantes e interessados pela teologia. Além da coleção Teologia e Libertação, que infelizmente por razões de contingências adversas encerrou o projeto de uns 50 volumes, publicando um bom número de 30, a editora espanhola Siquém em convênio com as Paulinas vem publicando manuais de teologia de nível médio na coleção Livros Básicos de Teologia. A FAJE prossegue na publicação das coleções Bíblica e Theologica com obras de peso.

Predomina no momento a literatura teológica de consolo, de autoajuda com tiragens altíssimas, de conteúdo fluido, superficial e midiático. Sob certo sentido, cresce o mercado teológico, mas não dos livros de peso e sim os de divulgação espiritualizante. Percebe-se queda do interesse pelo estudo sério da teologia no meio do clero e dos religiosos/as. Em compensação, aumenta a faixa de leigos que procuram aumentar a cultura teológica. No Brasil ainda se considera luxo comprar livro. Em qualquer pequeno aperto orçamentário, risca-se esse objeto da lista enquanto entram objetos supérfluos de consumo, especialmente eletrônico.

O novo mundo produzido pela técnica e seus desafios para a compreensão da vida, o esgotamento do modelo das sociedades de consumo, a revolução sexual e as novas configurações da família, a situação da pobreza e o desafio ecológico, o colapso dos sistemas de representação e a nova geopolítica global, os fundamentalismos religiosos estão em destaque na pauta mundial. Como a teologia pode se posicionar neste cenário?
De fato, a pergunta elenca ladainha pesada de problemas que desafiam a vida do cristão. E a teologia oferece-se como reflexão sobre a fé. Nesse sentido, afetam-na todas essas questões.
A técnica está a transformar a cultura cada vez mais intensamente. Nos inícios, ela aliviava o corpo do peso muscular. Em vez de capinar horas a fio, o trator liberou os braços do camponês. Para quê? Teilhard de Chardin imaginou que iríamos ter mais tempo para tarefas intelectuais e espirituais. Talvez tenha resultado, em parte, verdade. As pessoas começaram a dispor de mais tempo livre para lazer e outras atividades.

Nesse momento, porém, a tecnologia avançou e prolongou os sentidos, especialmente o ouvido e a vista com enorme parafernália de TV, vídeos, DVDs, etc. Ela entra precisamente quando o espaço vazio do trabalho manual poderia ser preenchido por atividades intelectuais e espirituais. No entanto, acabou ocupando as pessoas com programas de TV que primam por muita estupidez e alienação, sem desenvolver necessariamente a capacidade intelectual nem espiritual. Há, porém, na pluralidade de canais ofertas de melhor nível, freqüentadas menos pelas grandes massas.
No atual momento, a tecnologia pretende mais. Quer afetar diretamente o cérebro, ampliando as possibilidades de conhecimento, sobretudo pela Internet e pelo conjunto de possibilidades que ela abre. De novo, a ambiguidade desse meio tem produzido efeitos realmente de avanço cultural como de degradação moral. Então, desafia a fé cristã assumir tal avanço tecnológico das três ondas e oferecer alimento cultural e espiritual.

No referente à sociedade de consumo, não diria que no Brasil ela demonstre sinais de esgotamento. Antes, alardeia-se nos jornais o acesso das classes C e D ao consumo. E a crise financeira atual tem produzido menor impacto sobre a economia brasileira, em parte devido ao crescimento do consumo da população. Mais. Infelizmente a mentalidade consumista cresce, especialmente no meio das crianças e dos jovens. Aqui a teologia de viés ecológico tem trabalhado para acordar o cristão para vida de sobriedade a partir da mensagem e prática de Jesus.
A revolução sexual tem tido positivas influências na teologia, a começar por as mulheres assumirem papel protagonista na produção teológica que vai além da reflexão sobre a mulher. Interpreta toda a teologia sob o ponto de vista da mulher com reflexões originais. Além disso, a temática sexual interessa cada vez mais a teólogos/as, apesar de toda dificuldade no interior da Igreja católica de tratar de tal assunto. Haja vista o livro do teólogo inglês J. Alison, radicado no Brasil. Obra inteligente de fina sensibilidade, de densidade e de alto nível teológico [Fé Além do Ressentimento. Fragmentos católicos em voz gay. São Paulo: É Realizações Editora, 2010].

A temática da família tem merecido relevo, talvez mais em cursos e palestras do que em escritos. Outro tema bem delicado em face da pluralidade de famílias e de relações entre cônjuges que se constituem e buscam legitimidade ético-social. E as religiões têm tido dificuldade em enfrentar tal problemática por conta de suas longas tradições firmadas na leitura bíblica de família monogâmica, entre homem e mulher em vista da procriação com vínculo estável. O mapa familiar da atual sociedade embaralha a vista de quem se põe nesse horizonte único.
A situação dos pobres permanece, na presente sociedade, igualmente ou senão mais grave. À condição de empobrecido socioestruturalmente soma-se-lhe a de segregado da cultura informatizada, agravando-lhe a exclusão. Pobres se tornam invisíveis no sentido de serem alijados para as periferias distantes e, sob certo sentido, escondidos atrás de aparência melhorada e até, não raro, com acesso a celular e outros produtos eletrônicos. Não se sabe a custo de quê. Continua válida a preocupação fundamental da teologia da libertação de batalhar na linha da emancipação dos pobres antigos e novos.

Já apontei o problema ecológico como grave e urgente interrogante para a teologia. Mais uma vez menciono o ingente trabalho teológico de L. Boff. Assistimos a certo colapso dos sistemas de representação e ao surgimento de nova geopolítica global. A teologia política e a teologia pública, bem próximas da teologia da libertação, assumiram a tarefa de pensar tal questão. Teólogos/as, especialmente ligados/as ao Instituto Humanitas da Unisinos, têm produzido e recolhido de todas as partes contribuições significativas nesse campo.

E finalmente a pergunta se dirigiu aos fundamentalismos. Os teólogos das religiões e do diálogo interreligioso debruçam-se sobre tal tema. Na minha análise, cabe diferença básica entre religião, religiosidade e fé. A religião, como tal, não gera e não dissolve violências nem fanatismos nem fundamentalismos. Depende de que doutrinas religiosas ela administra. Além disso, a religiosidade responde primordialmente à experiência das pessoas no interior de uma cultura. A fé, por sua vez, remonta à revelação. Essa trilogia necessita ser distinguida e articulada. Remeto o leitor à reflexão que fiz em que distingui e articulei religião, religiosidade e fé [A Religião no início do milênio, 2º ed. São Paulo: Loyola, 2011, p. 87-110]. Conforme se entenda cada uma dessas dimensões religiosas, a problemática se encaminha em direções diferentes. A imprensa mistura os campos, gerando imagem negativa de toda religião e fé. A teologia tem elementos para contrapor-se a tal jogada ideológica, situando a questão nos diversos momentos da história.

O reconhecimento civil da Teologia abre um novo cenário para o ensino teológico. Também o surgimento de novas escolas teológicas tem apontado outras perspectivas do ensino. Em que esta realidade favorece a produção teológica?
A multiplicação de Institutos e Faculdades teológicas está a produzir dois efeitos antitéticos. De um lado, tem feito aumentar o interesse pela teologia e assim tem estimulado o crescimento da produção teológica. O aumento do público provoca as fábricas de teologia a se multiplicarem e a ampliarem a própria produção segundo a demanda do mercado. Negativamente, porém, corre-se o risco de baixar o nível da produção por afã de satisfazer rapidamente ao consumismo religioso. Além disso, o maior número de graduados e pós-graduados permite aceder mais facilmente a esse grau, sem tanta preparação e capacidade teórica. Teme-se isso muito mais nas Instituições de corte pentecostal e neopentecosal que sofrem maior pressão de crescente clientela a exigir mais teologia para seu consumo.