domingo, 2 de maio de 2010

Teologia como ciência

A teologia e as ciências são realidades históricas. Sua relação depende fundamentalmente do conceito que se tem de ciência e de teologia nos diferentes momentos da história. Varia, portanto, segundo se desenvolve a consciência humana e se modificam as condições sociais, cosmovisões, ideologias, interesses, em que tal relação se situa.

a. Submissão da ciência à teologia
Teologia e ciência viveram longa lua-de-mel ou, mais exatamente, matrimônio patriarcal de fidelidade. As ciências dependiam da teologia que desempenhava o papel de rainha. Santo Tomás, nesse contexto, define com rigor a relação entre teologia e ciência, servindo-se do conceito aristotélico de ciência e readaptando-o de tal modo que a teologia lhe realiza as condições básicas.
Ciência define-se, neste sentido, como conhecimento certo e sempre válido, resultado de dedução lógica. Certo, porque procede de evidências primeiras e indemonstráveis. Dedutivo, porque articula as conclusões com os princípios universalmente válidos por meio de raciocínios necessários. Perfeito, porque atinge as coisas em seus princípios essenciais e necessários. Por conseguinte, ciência pretende conhecer, de maneira certa, as causas ou razões de ser.
Teologia diz-se ciência, não no sentido de ter evidência imediata de seus princípios, a saber, das verdades reveladas, mas enquanto ciência subordinada à ciência de Deus. Os princípios da teologia só tornam-se evidentes na ciência mesma de Deus, i. é, na ciência que Deus tem de si. A teologia recebe da ciência de Deus — ciência subordinante — os seus princípios. Está em continuidade com essa ciência de Deus, em que as verdades reveladas participam da evidência divina pela revelação e fé. É conhecimento certo e dedutivo, mas a seu modo.
A teologia, como ciência subalterna, subordina-se à ciência superior de Deus e dos santos. Adquire, por isso, mais dignidade que aquelas que se fundam em princípios conhecidos à luz natural do intelecto e por si evidentes.
Estribando-se na própria ciência de Deus, que não se pode equivocar nem pode enganar-nos, toda verdade teológica se faz normativa para as outras ciências. Em qualquer conflito de intelecção, a teologia nessa compreensão levava vantagem inegável. Tutelava, por isso, tranqüilamente todos os outros saberes humanos.

b. Surgimento dos conflitos
Com o advento da ciência moderna com Copérnico, Galileu Galilei e Newton, nascem os primeiros conflitos entre teologia e ciência. Aparece claro o choque entre as pretensões de ambas. A teologia, acostumada ao regime de cristandade, oferecia um sistema de representação completo e global da realidade, apoiado sobre a base da fé, como princípio integrador e totalizador. As ciências modernas invertem o método. Partem da experiência verificável, matematizável e tentam estudar os fenômenos, as causas segundas, em termos de leis físicas, constantes, universalmente válidas, independentemente do aval de outra ciência. Sua verdade se apóia na racionalidade da experiência que se deixa repetir e verificar em determinadas condições. E suas verdades são pensadas em relação às coordenadas que elas mesmas se traçam. A certeza já não se fundamenta nem na autoridade da Escritura nem na de filósofos da Antiguidade, mas em sua verificação experimental.
O conceito moderno de ciência é, por conseguinte, outro. Os conhecimentos, que formam o corpo teórico das ciências, adquirem-se por meio de métodos muito precisos de experimentação, nos quais as afirmações se provam imediatamente, podem ser verificadas e por isso admitidas universalmente, desde que se respeitem as condições do experimento. As ciências pretendem ter um controle de todas as pro-posições pela experimentação. Seus conhecimentos são elaborados e controlados por procedimentos de demonstração e verificação.

Evidentemente, com esse conceito de ciência, viveu-se um primeiro momento de mútua condenação. A teologia não cumpria essas condições de ciência e, por isso, era rejeitada como tal. Por sua vez, a teologia adjudicava ao orgulho humano esta pretensão de absoluta autonomia. O processo contra Galileu Galilei se fez simbolicamente o marco deste conflito. Fato histórico assaz conhecido, que finalmente encontrou seu desfecho com o reconhecimento por parte da Igreja de seu equívoco e pela plena reabilitação do cientista italiano.

c. Solução intermédia da harmonização apologética
Em seguida, buscou-se harmonização apologética. Mantendo-se enquanto possível as afirmações teológicas, bíblicas ou outras, idênticas em sua materialidade literal, de um lado, e as afirmações científicas que pareciam contradizê-las, de outro, torciam-se os textos a tal ponto que se encontrava uma harmonização. Nesta linha, tornou-se famoso o livro até hoje reeditado: E a Bíblia tinha razão. Tal solução precária não resistiu à crise provocada pela consideração epistemológica sobre os diferentes tipos de saber.

d. O momento da ruptura: positivismo da ciência
Entrou-se em nova fase de relacionamento. Da “bela unidade” tradicional passando pelo conflito, chegou-se ao divórcio com liberdade total para cada cônjuge. As ciências, independentemente da teologia, vão fixando sua episteme própria, e a teologia esforça-se por ser ainda reconhecida com certa dignidade no consórcio das ciências. Inverte-se o cenário. Antes as outras ciências mendigavam o beneplácito da teologia. A filosofia se dizia serva da teologia (ancilla theologiae). Agora a teologia debate-se para ser considerada com seriedade e não relegada ao mundo das fábulas.
Cada mundo de saber explicita sua verdade própria, intrasistêmica, autônoma, irredutível a qualquer outra. Ela se torna instância crítica de si mesma e não de outras, nem se deixa criticar por outras. Reina visão positivo-hermenêutica no sentido de que cada interpretação científica delimita ela mesma seu mundo de verdade, seus parâmetros, sua objetividade. As ciências exatas reivindicam a explicação dos fenômenos por razões imanentes e verificáveis em condições estabelecidas. As ciências humanas posicionam-se no universo do sentido das coisas. O modelo principal, cabia às ciências positivas, exatas, experimentais. As outras se moldavam por elas e eram tanto mais ciência quanto mais se aproximavam desse modelo positivista e empirista, que reduzia a ciência ao experimental e a experiência ao âmbito do sensível, relegando para o mundo subjetivo e fabuloso tudo o que transcendesse tal esfera sensível e constatável. Nesse sentido, ciência se dizia aquele conjunto de teses formado unicamente com o auxílio de métodos precisos de experimentação. As afirmações provam-se imediatamente por sua aptidão em suscitar aplicações concretas que efetivamente são admitidas por todos.

Esta visão positivista marcou a compreensão vulgar de ciência, como se ela fosse baseada na evidência sólida e irrefutável, e como se suas descobertas fossem inquestionáveis com a pretensão de desvendar todas as áreas da experiência humana. Seria questão de tempo. Ela gozaria de uma neutralidade irrefutável, já que o cientista abordaria a realidade sem nenhum pressuposto.
Evidentemente nesse quadro da ciência moderna, a teologia faz pobre papel. Tendo como objeto Deus, realidade transcendente e inexperimentável no sentido positivista, ela é alijada do mundo científico. O filósofo positivista A. Comte relegara a religião — o mesmo vale para a teologia — ao mundo da infância da humanidade e das pessoas. A idade adulta da razão considera-a definitivamente superada como toda possível fé em Deus.

e. Momento hermenêutico
A discussão vai mais longe. A dúvida, a suspeita, a crítica bateram às portas da pretensão objetivista e empirista da concepção positivista da ciência. A experiência científica, exemplar máximo do dado objetivo, é envolvida pela suspeita hermenêutica e ideológica. Hermenêutica, ao afirmar-se que não há puro dado. Todo dado é interpretado. A experiência tem a face objetiva da presença do dado, mas também implica a percepção desse objeto pelo sujeito que o penetra e o exprime em linguagem. E, ao fazer isso, interpreta-o. Suspeita ideológica, porque todo conhecimento reflete interesse. Rui o universo frio e asséptico do conceito positivista de ciência. Por revelar visão interessada e querer passar por absoluta e apodítica, torna-se equivocada.
Institui-se a distinção entre o êxito instrumental da ciência que permite prever corretamente o funcionamento do mundo natural e as teorias científicas pelas quais os cientistas descrevem tal funcionamento de modo complexo e objetivo. Enquanto há unicidade e neutralidade da ciência no controle e previsão do comportamento de nosso mundo, há diversidade de teorias explicativas, conflitivas entre si e carregadas de valor. Se a ciência instrumental se rege pela perfeita adequação ao mundo físico, as teorias, por sua vez, se definem pela coerência interna e pelo fato de obter consenso entre os cientistas.
Com efeito, a multiplicidade de possíveis interpretações impede de recorrer à correspondência empírica pela via da verificação. Questiona-se então a objetividade absoluta e impessoal das teorias científicas.

Caminha-se, assim, para novo patamar de relação. Toda experiência, também a científica, ao converter-se em teoria, reflete a interpretação do sujeito, traduzida em determinada linguagem. Este sujeito pode ser a comunidade científica, que se relaciona com o objeto mediante modelos, categorias ou paradigmas. Ela os constrói para captar e interpretar o dado em discurso científico. Ora, sob este aspecto, todas as ciências, inclusive a teologia, sofrem esse mesmo procedimento. Submetem-se a este mesmo estatuto epistemológico. Em outros termos, toda ciência interpreta modelarmente a realidade, seja explicando-a, seja dando-lhe sentido, ao compreendê-la. Explica interpretando, interpreta explicando.
A visão positivista pretendia pôr a subjetividade totalmente entre parênteses. Entretanto, a subjetividade entra no centro da concepção de ciência. Não se trata de um sujeito abstrato, nem de uma razão pura, mas da coletividade pesquisadora e geradora de ciência. Há uma subjetividade coletiva inserida na história, articulada num horizonte sociopo-lítico e movida por interesse.

Mais. As teorias de W Heisenberg e N. Bohr levam adiante a reflexão, sobretudo em relação ao mundo atômico. Não se consegue nenhuma previsão de comportamento global nesse microcosmo. As partículas não podem ser conhecidas em si mesmas, mas somente em sua relação com o observador. A ocular do observador define também o fenômeno e não simplesmente o capta.
A comunidade científica trabalha com paradigmas, que exprimem o conjunto de pressupostos conceituais e metodológicos de determinada tradição científica e a partir dos quais os fenômenos são interpretados. Quando, porém, novo fenômeno descoberto relevante já não cabe dentro desse paradigma, elabora-se outro diferente daquele vigente, sob o influxo da intuição genial de algum cientista. Acontece uma revolução científica, como sucedeu nos casos da passagem do paradigma ptolomaico para o newtoniano, e deste para o einsteiniano.
Os interesses das ciências exatas e das ciências humanas revelam-se diversos. Mas são interesses. As primeiras buscam um acúmulo de informações com o objetivo de dominar com êxito a natureza e seus processos. E, ao lado desse interesse geral, somam-se outros interesses ainda mais ideológicos. Quando a comunidade científica americana investiu para produzir a bomba napalm, certamente esteve presente o interesse geral de domínio das leis químicas. Mas por que precisamente a bomba napalm e não outra composição química? Isso já não se explica, nem pela pura objetividade das leis químicas, nem pelo interesse geral de conhecimento e domínio da natureza, mas revela conexões econômico-políticas, ligadas à guerra do Vietnã.

Os interesses epistemológicos das ciências humanas aparecem mais claramente vinculados com o objetivo de incrementar, ampliar a interação e comunicação entre as pessoas dentro de um universo de sentido. Elas usam modelos e paradigmas que permitem ao ser humano situar-se em suas relações consigo, com os outros e com o mundo, por meio do conhecimento de seus mecanismos e de seu sentido em vista de construir vida mais humana. Evidentemente, a liberdade humana pode perfeitamente inverter o interesse fundamental que justifica o nome de “ciências humanas”, ao orientar seu estudo e pesquisa no sentido de ampliar a exploração sobre o ser humano (...)
A teologia utiliza também modelos e paradigmas para entender seu objeto central, a saber, a autocomunicação de Deus na história em ações e palavras. Tem o mesmo estatuto epistemológico no sentido de aproximar-se da revelação de Deus com categorias, matrizes, paradigmas interpretativos, hauridos da filosofia e das experiências humanas. Além disso, deixa-se mover pelo interesse maior de interpretar a Palavra de Deus para dentro da história humana em vista de sua libertação. Infelizmente, também a liberdade humana pode transgredir esse estatuto emancipatório da teologia, como ciência humana hermenêutica, e transformá-la em uma teia do processo de dominação. A clareza da percepção, não só dessa possibilidade, mas de sua concretização em determinadas categorias teológicas, levou J. L. Segundo ao projeto teológico de “Libertação da teologia”.

A teologia, fiel ao seu propósito último e fundamental de ser libertadora, intenta dialogar com as outras ciências exatas e humanas no sentido de mutuamente se criticarem e se estimularem em vista da concretização do projeto emancipatório, sentido último de toda ciência feita pelo ser humano. Nesse movimento de compreender o mundo, criando modelos interpretativos e transformadores, e de dar-lhe sentido, as ciências podem dialogar com a teologia, cujo único escopo é desvelar o sentido último e transcendente da vida humana. Pois ela priva com o mistério de Deus, realidade última e fundante de todo sentido e de toda ciência. A mais positiva e exata ciência remete, em última instância, ao mistério do ser, do real — Deus —, como um não-saber que sustenta todo saber. E a teologia vive desse e para esse mistério. Nesse nível se restabelece plenamente o diálogo entre teologia e ciência.

f. Conclusão
A teologia cumpre determinadas funções da ciência, mas que também não responde a outras. Diz-se ciência de maneira original. A ciência, enquanto voltada para o mundo do fenômeno, do constatável, do verificável, e, portanto, sujeita ao processo de verificação e comprovação de suas verdades pela via da experimentação ou da simulação, não corresponde à natureza da teologia.Uma vez aceita a pluralidade dos jogos lingüísticos, dos diversos saberes, das diferentes maneiras de conduzir o próprio método, de pautar seu rigor teórico e de fazer parte de uma comunidade científica como expressão moderna de ciência, a teologia faz-lhe pleno jus.

João Batista Libanio, da obra: "Introdução à Teologia", Loyola, 2o10, 4ed, cap.2.

2 comentários:

  1. Quando iniciei minha pesquisa diletante acerca da origem do cristianismo, eu já tinha uma ideia formada que pode parecer esdrúxula: a perseguição aos judeus. Portanto, nada de Bíblia, teologia e história das religiões. Todos os que haviam explorado esse caminho haviam chegado à conclusão alguma. Contidos num cercadinho intelectual, no máximo, sabiam que o que se pensava saber não era verdade. É isso o que a nossa cultura espera de nós, pois não tolera indiscrições. Como o mundo não havia parado para que o Novo Testamento fosse escrito, o que esse mesmo mundo poderia me contar a respeito dessa curiosidade histórica? Afinal, o que acontecia nos quatro primeiros séculos no mundo greco-romano, entre gregos, romanos e judeus? Ao comentar o livro “Jesus existiu ou não?”, de Bart D. Ehrman, exponho algumas das conclusões as quais cheguei e as quais o meio acadêmico de forma protecionista insiste ignorar.

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  2. Quando iniciei minha pesquisa diletante acerca da origem do cristianismo, eu já tinha uma ideia formada que pode parecer esdrúxula: a perseguição aos judeus. Portanto, nada de Bíblia, teologia e história das religiões. Todos os que haviam explorado esse caminho haviam chegado à conclusão alguma. Contidos num cercadinho intelectual, no máximo, sabiam que o que se pensava saber não era verdade. É isso o que a nossa cultura espera de nós, pois não tolera indiscrições. Como o mundo não havia parado para que o Novo Testamento fosse escrito, o que esse mesmo mundo poderia me contar a respeito dessa curiosidade histórica? Afinal, o que acontecia nos quatro primeiros séculos no mundo greco-romano, entre gregos, romanos e judeus? Ao comentar o livro “Jesus existiu ou não?”, de Bart D. Ehrman, exponho algumas das conclusões as quais cheguei e as quais o meio acadêmico de forma protecionista insiste ignorar.

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