terça-feira, 30 de março de 2010

Filosofia e Teologia em Ignacio Ellacuría

Elismar Alves dos Santos - Doutorando em Teologia pela FAJE, Belo Horizonte

Ignacio Ellacuría reflete sobre a necessidade de sistematizar uma filosofia a partir da realidade da América Latina. Apresentaremos aqui os principais traços de sua filosofia, voltada para a realidade libertadora, tendo como referencial teórico os artigos: “Funcion Libertadora de la Filosofia”,
“El objeto de la filosofia” e “Filosofia de la realidad histórica”. Seus escritos visam contribuir na formação da consciência social dos cristãos da América Latina, para a qual trabalhou incansavelmente. O autor foi assassinado por um grupo paramilitar de El Salvador, em 1990.

O caráter libertador da Filosofia
O teólogo e filósofo Ignácio Ellacuría desenvolve uma reflexão atual sobre o papel da filosofia nas relações humanas em vista da promoção da dignidade do ser humano. Trata-se de uma filosofia concebida como busca pela verdade em sintonia com a liberdade. Lembrando, porém, que os escritos de Ignácio Ellacuría, tanto na área da teologia como da filosofia refletem acerca da situação da opressão e da desigualdade social na América Latina. O autor lembra que na América Latina existe uma Teologia própria conhecida como Teologia da Libertação. Porém, carece, ainda, de uma Filosofia com o “rosto”da América Latina, enquanto originada da sua própria realidade histórica. Uma razão pela não existência ainda de um método filosófico de origem Latino Americano, na avaliação de alguns estudiosos, pode ser este: “devido ser um continente nacionalista, indigenista, autóctonas, etc”. (Ellacuría, 1985, p. 46).
A proposta filosófica de Ellacuría tem como meta abordar a filosofia na condição de meio que proporciona a liberdade através da experiência da cultura e das estruturas sociais, dentro da realidade da pessoa humana, onde ela precisa realizar-se em espírito de liberdade. A liberdade é tema importante na filosofia desse pensador. Assim, ele explica que a filosofia desde os pré-socráticos, procura refletir sobre a liberdade. Porém, não se trata de uma liberdade abstrata, mas sim, prática na história do ser humano.
Tendo subjacente o artigo de 1985, “Funcion Liberadora de la Filosofia,” I. Ellacuría parte de uma constatação: a América Latina por ter vivido um contexto de opressão não foi possível criar uma tradição filosófica. Ele considera a filosofia responsável por conceder “uma capacidade crítica ”ao ser humano diante das ideologias. Ellacuría recorda que a filosofia é uma poderosa “arma” no combate a opressão social, pois leva o indivíduo a criar consciência do seu papel enquanto agente de transformação. Assim, recorda que a filosofia se distingue historicamente, por sua criticidade.
A filosofia busca, entretanto, os fundamentos racionais que o indivíduo necessita para posicionar-se diante de seu contexto histórico. Com isso, “a função libertadora da filosofia é exigida então, por sua própria condição de criticidade e fundamentação e por sua vez, obriga ao fazer filosófico buscar uma fundamentação crítica”. (Ellacuría,1985, p. 51). A reflexão filosófica de Ellacuría visa chamar a atenção para a importância da emancipação do sujeito. O teólogo lembra que na década de oitenta, dever-se-ia pensar nos processos sócio-econômicos que a sociedade estava passando, de opressão pelos regimes totalitários, como pela gritante desigualdade social nos países classificados como “terceiro mundo”. Nessa perspectiva ele pontua que se deveria falar da “autodeterminação pessoal do sujeito livre e consciente”. (Ellacuría, 1985, p.53).
A filosofia deve ser utilizada como referencial teórico de enfrentamento diante da realidade de desigualdade social, pois ilumina, interpreta e transforma a pessoa humana. Está subjacente ao seu pensamento, a capacidade da filosofia enquanto meio que proporciona a práxis. Em outras palavras: “O homem tem uma forma peculiar de enfrentar-se com a realidade que é a habilidade intelectiva, que independentemente de sua origem, natureza e condicionamentos, estruturais, têm sua peculiaridade que deve ser estudada não só para conhecer o que é o homem, mas para anteriormente poder fazer um uso crítico de sua própria inteligência.” (Ellacuría,1985, p.54).

Entretanto, adverte que esta possibilidade da filosofia em proporcionar a liberdade através da inteligência serve tanto para libertar o homem como também para oprimi-lo. Se a filosofia faz parte da condição existencial do ser humano, então ela contempla a realidade social do indivíduo. Lembrando que “homem, sociedade e história são três realidades vinculadas entre si, porém cada uma tem sua peculiaridade”. (Ellacuría, 1985, p.54). A temática da história na filosofia encontra espaço fecundo em suas reflexões, pois ele propõe uma filosofia da realidade histórica, como ponto nefrálgico de seu método filosófico. Esse assunto será evidenciado no segundo artigo do autor, em relação ao objeto da filosofia. A filosofia é uma busca transcendental, porém vinculada às realidades transcendentes, na historicidade do ser humano.
A filosofia contempla a historicidade da pessoa. Com isso, ele faz lembrar que a razão tem um caráter concreto, ou seja, a intenção presente na razão é tomada como figura concreta em seu modo formal de estar lançada ao real. Retomando o que foi dito sobre o papel da práxis, pode-se dizer que a práxis não é um conceito psicológico, social ou ético, mas um conceito estrutural. Esse conceito estrutural da práxis encontra-se presente na realidade histórica do indivíduo. “A filosofia como momento teórico desempenha sua capacidade libertadora e ela mesma se potencia como tal ao recuperar consciente e reflexivamente seu papel como momento teórico adequado da práxis histórica”. (Ellacuría, 1985, p.56). A práxis contempla o caráter estrutural-social e a libertação precisa ter também “um caráter estrutural-social”.
Considerando que a filosofia para Ellacuría precisa encontrar-se encarnada na realidade social e histórica, surge a possibilidade de se pensar uma filosofia “cristã”, como proposta nova em favor do ser humano. A filosofia cristã teria como meta instalar seu caráter filosófico autônomo no lugar privilegiado da verdade da história, em sintonia com a experiência da Cruz, pois a Cruz remete-nos a esperança libertadora. A filosofia cristã, nessa perspectiva, identifica-se com a história de crucificação do povo e com toda forma de dominação e exploração, sobretudo, na realidade da América Latina.
Ignácio Ellacuría no artigo “Funcion Liberadora de la Filosofia” de 1985 lembra do contexto no qual emergiu a Teologia da Libertação. A mesma surgiu devido a um dilema na área da política, da realidade social e religiosa, em que a opressão e a desigualdade social contribuíram para se pensar numa nova hermenêutica teológica. Ele defende a criação de um estilo filosófico Latino-Americano, partindo da experiência histórica dos diversos rostos crucificados pela desigualdade social, tendo por meio da filosofia um suporte crítico e libertador. Essa seria a função da “Filosofia da Libertação”. Vejamos agora como ele compreende o objeto da filosofia, tendo como referencial dois escritos de sua autoria: “El objeto de la filosofia” de 1992 e “ Filosofia de la realidad história”de 1990.

O objeto da Filosofia
A realidade social está metafisicamente entrelaçada na história. Para tanto, ele fala da inter-relação entre natureza e história. Sobre esse ponto escreve: “não se pode tratar da natureza sem referir-se a história, nem do homem sem referir-se a sociedade e reciprocamente”.(Ellacuría, 1992, p.64). Porém, abarcando a totalidade como objeto, a filosofia depara-se com uma questão intrigante: “como se configuram a peculiaridade e a totalidade em cada uma das coisas?” (Ellacuría,1992, p.64). Por isso, diz que o objeto da filosofia deve ser tomado como um campo vasto, porque a filosofia deve configurar-se a todas as realidades existentes. Essa seria segundo Ellacuría o primeiro objeto formal da filosofia: sub ratione totius.
Mesmo falando em objeto da filosofia no “sub ratione totius”, Hegel e Marx salientaram a importância da unidade do objeto filosófico. Mas, Ellacuría pontua precisamente que o “objeto” da filosofia precisa contemplar a realidade como um todo sistemático, pois a realidade é um todo dialético. Se em Hegel a busca pelo objeto da filosofia diz respeito ao “sentido do ser”, em Marx configura-se pelos antagonismos sociais. Ellacuría diz que não se trata de fazer uma separação entre Hegel e Marx, mas colocar em discussão a questão do “objeto” da filosofia para ambos. Comumente afirmar-se que para Hegel tal objeto é o “ser”, porém para Marx são as realidades sociais.
A questão consiste em observar que Ellacuría serve-se da filosofia de Hegel e das considerações de Marx para pensar e estruturar o seu próprio “objeto”da filosofia. Ele lembra que tanto para Hegel como para Marx, a realidade é concebida como algo dinâmico e processual. Assim, após expor a matização do objeto da filosofia em Hegel e Marx, Ellacuría explica que segundo Xavier Zubiri, “ o objeto da filosofia é o todo da realidade dinamicamente considerado”. (Ellacuría, 1992, p.71).
Para Zubiri não há distinção entre “metafísica geral”e “metafísica especial”. A filosofia nessa perspectiva contempla o todo da realidade. Então, o objeto de estudo desse pensador, segundo Ellacuría é a “realidade intramundana”. Ele explica que Hegel desenvolve uma filosofia idealista; Marx oferece um método cientifico – “materialista” e, Xavier Zubiri discorre em sua filosofia acerca de um método filosófico – “realista”. São abordagens diferentes com o mesmo objetivo: compreender a realidade. Entretanto, Ellacuría adverte que “a realidade é sempre dinâmica e seu tipo de dinamismo corresponde ao tipo de realidade”. (Ellacuría,1992, p.76). Em outras palavras, não há realidade estática. A realidade é originalmente dinâmica.
Ellacuría postula o objeto da filosofia como realidade histórica. Vejamos em que consiste essa realidade histórica. Primeiramente trata-se de uma realidade assumida no reino social através da liberdade: é a realidade mostrando suas virtudes e possibilidades. A realidade histórica engloba todos os tipos de realidades, isto é, não há realidade histórica sem realidade material; sem realidade biológica; sem realidade pessoal e; sem realidade social. “Porque ‘realidade histórica’ se entende a totalidade da realidade tal como se dá unitariamente em sua forma qualitativa, mais alta e essa forma específica de realidade que é a história, onde nos dá não somente a forma mais alta de realidade, mas o campo aberto das máximas possibilidades do real”. (Ellacuría,1992, p.84).
Por isso, Ellacuría concebe como objeto da filosofia a “realidade histórica”. Mas não se trata de conceber a realidade histórica desvinculada da pessoa humana. Nessa proporção, não há simplesmente história, mas realidade histórica. Na obra “Filosofia de la realidad histórica” de 1990, encontra-se uma explicação sobre a relação entre história e natureza material: “a história surge da natureza material e permanece indissoluvelmente enraizada a ela”. (Ellacuría,1990, p.48). Os fatores materiais são decisivos na configuração dos grupos humanos e em seu modo de viver. A materialidade da história concebida como espaço e tempo justifica-se na existência da pessoa. O espaço e o tempo remetem-se a vida.
Assim, espaço e tempo são materializados nas realidades intramundanas. Observa-se que o autor toma o Cosmo como unidade constitutiva da realidade: “cada coisa é ‘coisa-de’ um todo, dos cosmos; constitui um construto, um sistema unitário, que é o cosmos”. (Ellacuría, 1990, p.49). A realidade remete-se a algo que se manifesta em si mesmo tendo no dinamismo seu ponto central. Logo, o objeto da filosofia nesse contexto é a realidade histórica. A realidade desvela-se na realidade complexa, coletiva e sucessiva “da humanidade, e indica que a realidade histórica pode ser o objeto da filosofia”. (Ellacuría, 1992, p.473).
Pessoa e realidade histórica no sistema filosófico do autor não se contrapõem, mas se completam. A realidade histórica é matizada como realidade aberta, construída pelo ser humano. A pessoa confere a realidade histórica essa abertura existencial. “O objeto da filosofia deve ser primeiramente a realidade intramundana, a qual não significa necessariamente que Deus há de ser tão somente objeto de fé”. (Elacuría, 1992, p. 86). Deus para ele está presente na realidade histórica de seu povo. O conceito de razão teórica e prática na filosofia de Kant, segundo Ellacuría, ilustra o dilema da presença de Deus na história do ser humano, não concebido através da razão teórica a qual é tomada como especulativa, mas Deus age por meio da razão prática. Entretanto, uma razão não exclui a outra, mas a razão prática evidencia a maneira operada por Deus de estar presente no comportamento do ser humano, tendo nos atos morais Deus como o Sumo Bem.
Para finalizar, Ellacuría ao problematizar a questão do objeto da filosofia faz lembrar primeiramente que não existem duas histórias: um dos países desenvolvidos e outra dos países do terceiro mundo. Porém, há uma única história, que ele entende como realidade aberta e dinâmica perpassada pelas experiências sociais do ser humano.

Conclusão
Evidenciou-se num primeiro momento que Ignácio Ellacuría recorre a Hegel, Marx e Xavier Zubiri para mostrar os principais traços filosóficos desses pensadores tendo como intenção explicitar como discorreram em seus sistemas filosóficos a busca pelo objeto da filosofia. Ellacuría elabora o seu próprio itinerário acerca do objeto da filosofia. A realidade é tomada como algo que se faz mediante a dinamicidade. Com isso, o teólogo e filósofo espanhol apresenta como objeto da filosofia a “realidade histórica”. A realidade histórica é tomada como realidade aberta. E essa abertura somente se dá devido ao fato da pessoa ser um ente em processo de transformação e ao mesmo tempo dado à experiência da liberdade. A abertura na realidade histórica é tomada por Ellacuría como experiência “intramundana” e, Deus caminha com a pessoa nessa vivência “intramundana”. Os três escritos de Ellacuría analisados permitem dizer que sua proposta filosófica-teológica contribuiu para a fundamentação da formação da consciência cristã defendida pela Teologia da Libertação, no contexto da América Latina. Assim, essa frase de Paulo Freire resume o propósito do autor espanhol e, comumente, da Teologia da Libertação: “Ninguém é sujeito da autonomia de ninguém”.

Bibliografia
ELLACURÍA, Ignacio. Filosofia de la realidade historica. Madrid: UCA Editores, 1990.
ELLACURÍA, Ignacio. Funcion Liberadora de la Filosofia. El Salvador: ECA – Estúdios Centroamericanos de la Universidad José Simeón Cañas, 1985.
ELLACURÍA, Ignacio. Para una Filosofia desde América Latina. Bogotá: Pontifícia Universidad Javeriana, 1992.
FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia: Saberes necessários à prática Educativa. São Paulo: Paz e Terra, 2008.

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